domingo, novembro 26, 2006

Um olhar natalício

Calcula-se, talvez erradamente, que vivendo em ambiente incaracterístico para a maioria das pessoas, o Natal passe despercebido no Palacete. Não passa. Tal como nos lares portugueses por esse país afora e adentro os preparativos começam agora e, como festa tradicional, este evento tem características especiais. Sempre teve. É um momento now and ligth onde a rebeldia e a revolta de quem está preso, a paz-catrapás de dias menos bons, divergências e outras carências, metem folga. Espaço único onde vemos gajos de quase dois metros, tatuados e barbudos, em azáfama constante pelos corredores das alas e oficinas a arranjar ideias.

O olhar que vem do exterior motiva-nos. O lado mais humano do pior bandido revela-se. A pieguice dos tipos que nasceram de armas na mão instala-se. Uma mutação emocionante e inexplicável, mesmo aos olhos dos melhores psicólogos e outros tipos que nos tratam da saúde.

Se fosse sempre assim, poderiam ter dito Shakespeare, Cesariny ou Pessoa, a razão de existirem calaboiços não tinha razão de ser. Afinal são estas pequenas merdas que nos fazem iguais aos outros na cosmética social.
Para quem não saiba, estes dias que nos separam do apogeu da mesa posta, da família, das prendas e do bacalhau com todos, criam arte e beleza de onde menos se poderia esperar. A veia poética e artística sobe de tom. A aprendizagem acumulada em meses e anos de degredo dão os seus frutos.

E fazemos de clowns. De actores e nómadas. De gente perdida que encontra o rumo certo no pequeno palco da vida neste cárcere. Pena que seja só por estes dias. Após a passagem de ano continuaremos a contar os outros que nos faltam para sair.

10 Comments:

Blogger Tânia said...

Neste caso, eu diria, ainda bem que o espírito começa cedo!

10:27 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos

Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?

Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

Mário Cesariny

abraço, py

10:51 da tarde  
Blogger peciscas said...

Esse teu testemunho tem de nos fazer pensar.
De facto, a espécie humana, não tem nada de linear, pois é capaz dos mais variados matizes.
Mas, no fundo, o que se passa aí, é uma consequência daquele espírito que se instala colectivamente nesta época e que, por muito que haja quem diga que o Natal nada significa para si,nunca deixa de contagiar, mesmo que imperceptivelmente.

7:09 da tarde  
Blogger aldina said...

Muito obrigada por esta reflexão inteligente e sensível sobre a nossa condição humana, que muito me fará pensar... para sempre, se Deus quiser!

Até sempre

11:04 da tarde  
Blogger Grilinha said...

Os teus textos deixam-me sempre a pensar sobre assuntos que por vezes me passam despercebidos.
Este não tanto.
Não que tenha estado alguma vez a cumprir pena mas cumpri uma das vezes 7 meses seguidos de internamento (várias cirurgias e a sentença de que tinha os dias contados).
O Natal a Páscoa e os aniversários dos filhos tornam-se datas tão especiais e únicas como nunca as tinhamos imaginado.
O Natal de 2005 passeio numa cama de hospital em sofrimento fisico e psiquico e a familia em casa não abriu as pendras e jantaram como se fosse um dia igual aos outros 364 dias do ano.
Acredita que neste Natal te vou mandar em pensamento (a telepatia funciona) um abraço.

2:31 da manhã  
Blogger Zé "Prisas" Amaral said...

Em meu nome e dos camaradas da caserna (rs) o Obrigado que se impõe pelos vossos comentários e visitas.

E venha de lá essa telepatia que nos é de enorme ajuda.

10:55 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

só consigo fazer telepatia quando estou a dormir, mas esta aqui é engraçada:

http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?id=110548&sid=12185

py

9:38 da manhã  
Anonymous Eremita said...

É caro Zé,o Espiríto Natalicío deve ser idêntico em ambas as situações.Afinal o presépio é o coração humano que alberga o Amor,e que nos convida acolher seja quem for,sendo ou não Natal.
Gosto da maneira clara e franca como escreve.
Abraço :)

4:50 da tarde  
Blogger Estranha pessoa esta said...

Gosto da clareza e intensidade das tuas linhas.
São cruas.
E por isso soam a tão verdadeiras.



"Afinal são estas pequenas merdas que nos fazem iguais aos outros na cosmética social."

.. Zé e essa cosmética social.. não passa disso.. de cosmética, à noite tiram o rimel e é velos vazios!




Estou na telepatia :)

Abraço grande e desassossegado :) **

8:38 da tarde  
Blogger JPN said...

pois Zé! também gosto muito da forma como escreves. e como és testemunha de uma vivência sobre a qual desconhecemos quase tudo. obrigado. e esperança...

3:49 da tarde  

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