quarta-feira, outubro 24, 2012

TROCA DE IDOSOS POR RECLUSOS !

Fazer uma troca dos nossos idosos que estão nos ASILOS pelo marginais que estão nos PRESÍDIOS seria uma boa ideia? Fazer uma troca dos nossos idosos que estão nos ASILOS pelo marginais que estão nos PRESÍDIOS seria uma boa ideia? Desta maneira, os idosos teriam uma vida bem melhor, além todos os dias acesso a lazer, passeios... Não teriam necessidade de fazer comida, fazer compras, lavar a louça, arrumar a casa, lavar roupa, etc... Teriam medicamentos e assistência médica regular e gratuita. Estariam permanentemente acompanhados. Teriam refeições quentes e constantes três vezes por dia. Não teriam que pagar renda pelo seu alojamento. Teriam direito a vigilância permanente por vídeo, pelo que receberiam assistência imediata em caso de acidente ou emergência, totalmente gratuita. As suas camas seriam mudadas duas vezes por semana, e a roupa lavada e passada com regularidade... Teriam um local para receberem a família ou outras visitas. Teriam acesso a uma biblioteca, sala de exercícios e terapia física, espiritual. Seriam encorajados a arranjar terapias ocupacionais adequadas, com formador instalações e equipamento gratuitos. Ser-lhes-ia fornecido gratuitamente roupa e produtos de higiene pessoal. Teriam assistência jurídica gratuita. Viveriam numa habitação privada e segura, com um pátio para convívio e exercícios. Acesso a leitura, televisão, rádio... Teriam um secretariado de apoio, e ainda Psicólogos, Assistentes Sociais, Políticos, Televisões, Anistia Internacional, etc... O secretariado e os guardas seriam obrigados a respeitar um rigoroso código de conduta, sob pena de serem duramente penalizados. Ser-lhes-iam reconhecidos todos os direitos humanos internacionalmente convencionados e subscritos pela ONU. Por outro lado, nos asilos onde antes estavam os idosos: Os delinquentes viveriam em predios velhos e abandonado, construidos há mais de 50 anos. Teriam que confeccionar a sua comida e comê-la muitas vezes fria e fora dos horarios. Teriam que tratar da sua roupa. Viveriam sós e sem vigilância. Esquecer-se-iam de comer e de tomar os medicamentos e não teriam ninguém que os ajudasse. De vez em quando seriam humilhados, assaltados ou até violados. Se morressem, poderiam ficar dias até alguém os encontrar. As instituições e os políticos não lhes ligariam qualquer importância. Morreriam após anos à espera de uma consulta médica ou de uma operação cirúrgica. Não teriam ninguém a quem se queixar. Tomariam um banho de 15 em 15 dias, sujeitando-se a não haver água quente. O entretenimento diário consistiria apenas em assistirem televisão... Autor: Anônimo

sábado, abril 14, 2012

Formação reclusa

Guardas prisionais denunciam falta de meios nas cadeias

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Uma incongruência

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Corte na ração

Segundo o Ministério da Justiça, "Paula Teixeira da Cruz, visita, dia 25 de Dezembro, o Estabelecimento Prisional de Lisboa. Esta deslocação prevê um lanche com os reclusos."

Deve ser fiambre em pão-de-forma e chá ou leite. Talvez umas bolachas de água e sal.
Provavelmente, nem a levam a vistar a cozinha e o refeitório. Ou os balneários quando a malta tem que esperar que os mais apressados tomem banho. Cá p'ra mim, era almoço e jantar e dormida. Na Ala G.

Bom proveito, sra. Ministra.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

O cão é tão amigo como o livro

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Agrilhoados e ofendidos (ou Pai Natal estatelado)










Provavelmente, este Natal será o mais difícil de passar dos últimos anos nas cadeias portuguesas. Quer sejam os agrilhoados que (sobre) vivem no “meu” palacete da Marquês da Fronteira, só p’ra exemplo, quer sejam os ofendidos a quem vai faltar coisas simplórias e que estão subjugados noutras cadeias ao ar livre.

A população prisional, essa, mesmo que vivesse num paraíso, estaria sempre privada dum Natal normal por culpa própria. Mas os outros, com quem agora convivo na sociedade civil, estão fodidos. A começar por aqueles que menos possibilidades de vivência comum, têm mais dificuldades na famigerada e prolongada crise: os velhos e os desempregados.

E o que me entristece, e revolta, é que nada podendo fazer os agrilhoados, os ofendidos fazer nada podem. Ao integrar-me de há uns anos a esta parte, começo a sentir que os problemas desta gente do meu bairro também são meus. E eu não tenho nada a perder, a não ser a honra de lutar por uma sociedade melhor.

Acredite-se, ou não, o Zé Prisas Amaral que foi dentro por crime de burla qualificada, está um homem mais consciente. Que saiu do Estabelecimento Prisional de Lisboa com os “cursos” todos, e aprendeu a safar-se nas situações mais filhas-da-puta sem com isso comprometer a própria idoneidade e ter como comprovativo o seu delito, está no seu direito que conquistou por paga . Outros que decidem o estado onde estamos e vamos viver nos próximos natais estão incólumes. Falta-me qualquer coisa que me escapa na solução de não alimentar gulosos. De não tolerar o incentivo ao roubo declarado que está a generalizar-se em Portugal.

A criminalidade está a aumentar, agora em desepero de causa. Mesmo que muito que se esforcem os informáticos contabilísticos fiéis ao poder, tentarem não divulgar os números reais. O défice democrático está perigoso? Está! E não é só na Madeira. A corrupção funciona? Sempre. O servilismo e o compromisso que assumiram os “marujos” que nos cortam a riqueza que se pode (ainda) produzir, continua, e continuará, enquanto se assumir que se resgatará a dívida. Só os otários podem acreditar nisso.

O outro tipo disse depois do jantar; “-Não pagamos!”. Concordo. Apenas pela simples razão que eu sei que todos sabem que “eles” são mais burlistas qualificados do que eu fui.

Prisões portuguesas sobrelotadas e com condições "miseráveis"

quarta-feira, novembro 16, 2011

A bem da Nação

Reconheço que o país atravessa uma fase difícil, e não será novidade para ninguém que o desespero e angústia irão (Iraque, Síria e mais marcas de futuro) despoletar uma carência que este país nem sempre teve: TRABALHO!
Agora que o parlamento apresentou o seu OE não se compreende a redução de postos de produção. A redução dos cuidados de saúde num país doente e velho. E o corte na Educação num Portugal ainda parvo e estúpido, não faz sentido.

Eu que ainda aos 40 não cheguei, estou preocupado.

O país não reage? Reajo eu, com o direito que me assiste à indignação e à revolta factual que está delineada na Constituição – lei fundamental do país – vou deixar de pagar impostos. Tirar os poucos euros que me restam do Banco. “Arranjar subterfúgios” de sub-emprego, inserção social a que pretos e ciganos que não fazem népia têm direito (?), Talvez tentar vender os Jerónimos e a Ponte Salazar. Renovar e inventar contratos com a Olivedesportos, Freeport, e muitas outras empresas a que outros subsidiários de governos extintos não responsabilizados têm direito, e solicitar apoio à Banca para empreendimentos que nunca irei fazer.

Numa fase mais adiantada (já que não sou solicitado para cachês que as produções televisivas pagam a qualquer marmanjo que queimou as pestanas à custa do orçamento, restam-me duas opções: ou emigro ou tomo Portugal como pertença.

Para Otelo, bastam 800 militares p’ra dar a volta a isto. Eu vou mais longe; chegam-me os seis milhões de benfiquistas ou os 700 mil funcionários públicos que estão fodidos.

sábado, junho 25, 2011

Má língua







Aqui há tempos, uma amiga no Facebook (a Cristina Vieira) questionou-me porque é que não actualizava o blogue, Ela que está a seguir uma carreira em Direito, (onde lhe desejo o maior sucesso), respondi muito sinceramente que se abrisse a boca nestas últimas eleições ia dar barraca. Mas isso já lá vai. Comi, calei e, verificou-se pelos resultados, que tinha razão. Estalaram alguns vernizes. Zangaram-se algumas comadres, mas a verdade verdadinha nunca veio ao de cima.

Agora imagine-se um gajo que passou três anos e tal na penitenciária por um delito que nada tem a ver com o que as pessoas mais odeiam, as coisas que se sabem. Não por ser cusco. É porque lá dentro, as novidades correm como ratos. E sabemos de factos reais sem provas, a que nem sequer a comunicação social tem acesso, que faziam capas de primeira página se tivéssemos o dever elementar de os denunciar. Talvez só Marinho Pinto ou alguns elementos judiciários o possam fazer. Mas também estão de mãos atadas.

Por questões de lealdade e respeito ao nosso Código de Honra – é a nossa Senhora do Carmo nas prisões – nunca se citam nomes. Mas podem-se dar dicas. E este estado de graça que esta equipa governamental está a passar deve-se ao facto de a maioria dos portugueses não os conhecerem devidamente.

Sei que todos temos telhados de vidro e qualquer pedrada pode estilhaçar uma janela. O que eu sei é que tudo isto é mais do mesmo; ganham os que lá estão e perde sempre o menor ladrão. Daqui a um ano, ou talvez menos, saber-se-á mais de “negócios” que não Freeport ou submarinos. São outros os lobbies, claro. Mas que envolvem a mesma gente. A tal gente que os politólogos, comentarólogos e outros lógolos orientadores de opinião sabem quem são.

No final, e o que mais se interioriza, é que quem se fode somos nós. Talvez até um dia…

terça-feira, dezembro 28, 2010

Em 2011 vou voltar a este espaço. Saturei o Facebook.
Daí, deixar os meus votos que a imagem abaixo descreve a todos os que passarem por aqui.

sábado, maio 01, 2010

Até que se justifique andarei no...



Existem por lá variadíssimas coisas interessantes.

Apareçam por lá!

sábado, março 20, 2010

Maxsimplex



Fosse este o Sócrates da nossa actualidade e outro Portugal renasceria.
Mesmo que de momentâneo não passasse, a alma de quem vive sufocado outro ar respiraria.

Se fosse um gajo assim, que gere um balneário fodido e complicado, e inovasse todos os esquemas e tácticas de que o país precisa, eu era muito bem capaz de não estar à espera de dar a próxima golpada. Porque isto, meus senhores, está entregue à bicharada. Mesmo que lhes dêem outros nomes.

Mas andarei por aqui para explicar umas coisas. Vou fazer uns telefonemas e verificar umas acções da banca branca que ainda não foram detectadas. Depois logo se vê se fico completamente rico ou se uma bronca maior rebenta agora!

Entretanto, os novos azeiteiros do poder vão ganhando regalias com a malta toda a ver. Fazem bem. O Benfica dá na televisão já no domingo.

domingo, julho 05, 2009

CR9



Voltei!
Nada melhor do que na altura da apresentação do CR9 que custou, nada mais nada menos, que o custo da reinserção do triplo de reclusos que as prisões portuguesas representa um décimo do orçamento aplicável a esta vertente. Ou segmento económico para a reabilitização, como se queira.

Inclusivé, cá estarei para assistir ao julgamento dos tipos todos que desviaram os fundos dos gajos que querem enriquecer depressa à conta das vantagens que a banca, com o aval do sistema bancário, dão.

Não estou numa de recaída. Farto-me de trabalhar as putas das oitos horas obrigatórias no serviço, mas estou a reflectir se não vale a pena voltar ao crime.

Pelo menos, num tribunal que me possa a vir julgar por crimes praticados após este post, posso adjudicar tratamentos especiais a crimes mais graves dos que eu possa praticar.

Proporcionalmente, claro. Mas sempre a propósito, enquanto esta classe política nos/vos governar.

quinta-feira, maio 01, 2008

Mais uma reabilitação



A Dra. Maria Clara Albino, licenciada em Direito, e com percurso ligado à reinserção social e afins, tomou posse como nova Directora-Geral dos Serviços Prisionais, substituindo Rui Sá Gomes.
Como tal, e à semelhança dos Professores, também nos calhou em sorte uma avaliação.
Felizmente, passámos com suficiente +.

Mais ainda com uma condicionante agradável; é o Zé “Prisas” Amaral (a quem foi dada nota “muito bom”) que vai dar continuidade ao Projecto e que fez questão de ser ele a pagar o PC que lhe deram, aos bochechos. O gajo é assim, o que é que eu posso fazer?

Portanto, malta daí de fora, preparem-se para uma de radical. Assinada pela directoria e tudo.

Portem-se bem, que a malta volta já!

Bruno Miguel Martins

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Que delinquentes temos e somos?

No início de mais um ano judicial, a abertura não podia ser mais polémica.
Para além das declarações do Dr. António Marinho e Pinto à Antena 1 na passada sexta-feira, o Sr. Presidente da República “acabou por dar seguimento às críticas” feitas pelo bastonário da OA, refere o JN. Até aqui nada de anormal. Estamos habituados a que se levante a lebre, mas depois não há sacana nenhum que lhe acerte.

As alegadas insinuações do bastonário, para além de serem graves, são sérias. Alguns de nós, julgados e condenados, também comemos algum de sacos grandes e sabemos muita merda sobre os grandes grupos económicos. Só que tivemos azar e fomos agarrados. Mas a gente não abre o bico, estejam descansados.
O que nos espanta é que haja tipos com responsabilidades no campo de investigação jornalística e do Direito que ficaram escandalizados com a tentativa de denúncia feita por António Pinto.

Para quem vive num ninho de lacraus – uma frase política parlamentar já com muitos anos – tem que estar imune à picada fatal. Quem não estiver, está fodido. Desde o simples traficante até ao assassino mais brutal, neste Palacete à beira-rio, temos que aprender a lidar com todas as situações. E um dos lemas da vida numa prisão é precisamente o da sobrevivência.
Aí fora não é diferente. O que dói é a impunidade de gajos que nos fodem e que continuam bem na vida.

Mas os bandidos somos nós!

Bruno Miguel Martins

ps - o Zé "Prisas" manda um abraço a todos. Está bem e recomenda-se. Mas se não fosse cá por coisas ainda arranjava maneira de "arranjar" um PC na Sonae para lho oferecer. Claro que o gajinho mandava-me logo para um sítio que não digo.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

O preto no branco






"Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço."

Como sempre, o nosso estimado companheiro e querido Amigo Zé esteve cá em mais um domingo que podia aproveitar para fazer coisas mais importantes, digo eu. De qualquer forma, é sempre uma mais-valia para que possamos andar na frente do que acontece para lá destes muros do Palacete e o gajo não abdica de nos acompanhar em tudo o que pode. Destes já não há, digo eu repetidamente as vezes que for preciso. (Ele agradece e retribui com um caloroso abraço a todos aqueles que lhe deixaram mensagens e palavras de apoio)

Agora vamos ao assunto.
O Correio da Manhã trouxe na primeira página um retrato-tipo do alegado raptor da pequena Madeleine McCann, certo? Sabe-se porventura quantos iguaizinhos temos por aqui espalhados nestas Alas e celas de aço requintado? Sete. Sem tirar nem acrescentar um cabelo que seja.

Tudo isto dá razão ao verso do António Aleixo que serviu de entrada e/ou aperitivo para este texto.
Agora acrescente-se o número de indivíduos nesta população residencial parecidos com políticos profissionais. Outros que se parecem com advogados a recibo verde. Muitos outros que imitam muito bem empresários de renome, futebolistas, banqueiros e vendedores da banha-da-cobra.

Querem mais?

Autarcas, polícias, Chefes-de-gabinete, Conselheiros de Estado, top-models, apresentadores de televisão e outra malta que está sempre nas revistas cor-de-rosa. Temos de tudo um pouco. Até rapaziada em alta que em tudo se assemelha com negócios-da-china e outros imobiliários paralelos. Mas convém escrever que, ao contrário do que se queira insinuar, e alegadamente fosse suposto que estaria tudo preso, não haveria Estabelecimentos Prisionais suficientes.

O que vale é que eu sou mesmo aquilo com que o Aleixo se parece. E mais não digo.

Bruno Miguel Martins

terça-feira, janeiro 08, 2008

Ano novo, vida nova

Entre os poucos indultos que o Sr. Presidente da República deu (a rapaziada nunca lhe perdoou o esquecimento das prisões no seu Roteiro) e as precárias nesta altura do ano, o Núcleo Duro ficou reduzido a metade (o Zé faz-nos tanta falta). E nesta coisa de entradas e saídas nunca se sabe como se deve interagir. Mas cá vou tentando aguentar esta pesada herança que aquele sacana nos deixou. O Zé.

Num balanço puramente estatístico, uma coisa bate certo: todos se queixam que a merda da vida aí fora tá fodida para aqueles que por mais dificuldades passam. E como se deve calcular, a esmagadora maioria dos reclusos não são originários de famílias abastadas. Daí, o termos testemunhado em conversas informais pelos corredores destas Alas que muitos já conhecem de cor, que muita malta “se desenrascou” para poder comprar uma merdice para os filhos, ou um simples bolo-rei que também custa a mastigar para colocar na mesa de Natal. E isso é fodido, meus. Uns viram as penas agravadas. Outros, lá se desenrascaram.

Certamente que nunca nos podemos queixar do tratamento e das regras deste Estabelecimento Prisional, ou de qualquer outro, porque as coisas funcionam mesmo assim. E por muito que possa doer a quem aqui criou raízes, sempre estivemos a par da realidade; somos escumalha e ninguém dá dois euros por qualquer um de nós. Mas se eu disser que há aqui gajos que estão encostados por pequenos delitos que a lei penalizou com dois ou três anos, e que possuem qualidades que muitos dos "certinhos" do lado de lá do muro não têm, não estarei a faltar à verdade.

Li algures que a medição da cultura dum povo se faz pelo tratamento que dá aos animais, ou coisa parecida. Eu acrescentaria sem pestanejar, que também se pode ajuizar pelo tratamento que os governantes querem, podem, e devem dar aos governados. E mesmo detidos por delitos que a sociedade julga e condena, também temos direito à opinião, sem contudo, recorrermos à indignação. Por motivos óbvios.

Serve este desabafo para constatar que estamos em tempos de mudanças. No Montijo estão a fazer-se coisas novas. Em Paços de Ferreira, também. Por aqui, as mudanças prendem-se com a troca de seringas e com a nova lei do tabaco. Não sei que para que quarto me vão mudar, mas deixar de fumar não deixo, e transformações mais importantes hão-de vir a lume. Nem que seja só p’ra queimar. Mas a malta aguenta.

Daremos notícias novas logo que tenhamos autorização.

Bruno Miguel Martins

domingo, dezembro 30, 2007



Falar de reinserção social nesta altura do campeonato não é fácil . Mas hoje tivemos o nosso convidado especial para poder tentar esclarecer algumas coisas importantes no que diz respeito à integração: o estimado Zé “Prisas” Amaral que nunca se cansa de nos vir ver.
Vou armar-me em “jornalista” e fazer a entrevista possível.

- Então minha puta sabida, como é aquela merda lá fora?
- Olá a todos. (em off); Esta treta está a ser gravada?
- Achas? Ou já te esquecestes que temos limites no Projecto? Só o Professor Peciscas é que sabe fazer aquelas cenas, meu! Mas conta cá, como é que está a ser?
- Olha Bruno, quase que dava para fazer um guião para o La Féria ter mais um sucesso (risos). Existem muitos entraves e o receio das pessoas ao lidar com malta que vem dos EP’s tem muito que se lhe diga, como uma vez te contei. Por muito que se tente apregoar que o sistema funciona, é mentira. O melhor mesmo é não saberem de onde a gente vem. E desde que um tipo se porte da maneira normal que qualquer cidadão que nunca foi dentro, tudo fica melhor.
- Espera aí. Mas tu já tinhas muitas merdas organizadas… emprego, casa, alguns contactos se te sentisses atrapalhado…
- Eu sei. Mas a realidade é um pouco diferente. Sabes quantos anos aqui estive dentro?
- Quem faz as perguntas sou eu!
- Tá bem, meu! Foda-se mais o teu mau feitio… (rs)
- Como é que foi o teu primeiro dia?
- Um pouco lixado, pá. Tive que comprar roupas novas a umas gajas muito simpáticas numa enorme superfície que desconhecia, para não parecer um maltrapilho e arranjar a manutenção comestível para as primeiras impressões, tás a ver?
- Mau. Já te disse que as perguntas… (interrompido)
- Desculpa.
- De ajudas na Assistência, como é que estamos?
- Conforme. Tens os exemplos da Maria, do Miguel Horta, que nos acompanham por e-mail e vão tendo o conhecimento suficiente sobre o desenrolar da situação em lugares como o nosso, quase em regime de voluntariado, e também sabem que a RS estatal não funciona a todo o gás, mesmo que a gente lhes encha os bidões de óleo novo.
- Trabalho, ocupações, copos e gajas boas?
- Não me digas nada. É a melhor parte. A malta do trabalho é cinco estrelas e acho que gostam do que faço em prol da empresa. Dizem que sou desenvolto, ou desenrascado, já não me lembro. E quando calha vamos todos beber um copo e existe uma chavala que pode ser… mas respeitinho (olhos abertos como a delimitar território).
-?
- É. E muito importante: aprendam a não continuar a cometerem excessos quando vierem de saída. Há sempre uma altura para tudo. A reabilitação começa por nós próprios e os bacanos que aqui estão do lado de fora medem um gajo pelo comportamento diário. Atenção a isso. Têm que se deixar de certas cenas ao princípio até que a vida normalize. Depois, cada um conquistará o direito de fazer da vida dele o que quiser. Nunca voltar para aqui é uma norma sagrada, e tu sabes.
- O que é que tens no pensamento para dizer a todas as pessoas que nos acompanham por aqui e que, já li, têm-te em alta consideração?
- Em boa verdade, são momentos que nunca esqueceremos, Bruno. Eu só dava a “cara”. Mais não fazia do que transmitir o que muitos de nós pensamos e sentimos. Tomara que os continuem a acompanhar, juntamente com essa equipa de apoio informático do Palacete, e que a vontade do Director se mantenha. Acho que ganham todos e tu és capaz de continuar o que todos nós conseguimos.
Pela praxe, desejar um Ano Novo 2008 com muito Amor, saúde e dinheiro. Que são coisas que cá fora dão muito jeito.
- Zé, seu cabrão, dá cá um abraço…
-Bruno, sabes que estás na calha (apertado a mim), porta-te bem senão venho cá partir-te os cornos.

Bom Ano a todos!

Bruno Miguel Martins

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Mensagem de Natal



Há quem passe o Natal em guerra, nos hospitais, em Vila Franca de Xira. Nós passamos o Natal na prisão, o que é que tem? Estamos a pagar um preço alto, nós sabemos. Mas a culpa é nossa.
Por isso, todos os natais, resolvemos fazer um balanço ao nosso processo penal e arranjar forma de minimizar o stress que esta quadra provoca fazendo teatro, espectáculos musicais, eventos desportivos, e uma pequena festa para os nossos filhos.

Por questões de segurança, desde a cimeira UE/África e a assinatura do Tratado de Lisboa estivemos sem sistema. Daí o não poder tido relatado todos os preparativos onde quase todos se disponibilizam na contribuição voluntária dos mesmos. E como era sobejamente chato estar aqui a fazer um rol de tretas, transcrevemos a mensagem de Natal que o nosso companheiro Zé “Prisas” Amaral deixou quando ontem nos visitou. (o gajo ainda não tem pilim para comprar um pc)

Bruno Miguel Martins



“Caríssimos Amigos,
o facto de me sentir integrado de novo na sociedade livre, não impede que me esqueça da atenção que sempre nos dispensaram e peço para que possam continuar, pois é um estímulo que a malta que aqui pernoita não se pode dar ao luxo de abdicar. Foram-me entregue inúmeras mensagens que guardo quase religiosamente. Talvez veja nelas um talismã que me ajudará a sentir-me um homem novo com uma nova vida. Fico-vos eternamente grato.

A vós, companheiros de infortúnio, nesta coisa nova de viver fora das celas e acordar de janelas e portas abertas, sinto que perdi ou me falta qualquer coisa. E no Natal, vocês sabem, a coisa tinha uma importância especial. Parece que me falta ouvir o roncar de alguns, um “empresta-me um cigarro”, uma caralhada ouvida a meio da noite.

Mesmo não trocando de ambiente, as nossas amizades continuarão. Mais: continuarei a mexer cá fora uns cordelinhos para que alguma malta possa ter nova oportunidade. Depois, saibam aproveitá-la.

Um bom e feliz Natal a todos com amizade,

Zé Pedro Amaral

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Do alto do Marquês



“Perdemos” o nosso estimado companheiro destas andanças – o Zé Amaral – mas, depois dumas afinações estruturais no que toca ao regime interno numa reunião que tivemos esta semana, temos condições para continuar com este projecto. O “vício” da escrita com que ele nos contagiou leva-nos a pensar que poderá, esta também, ser mais uma forma de ajuda na reabilitação do que começou por ser uma experiência piloto.

Por estranho que possa parecer, pois a maior parte dos que aqui estão quase não gosta de ninguém, nutrimos pelo Zé um especial carinho e sempre nos interrogámos “o que é que este gajo está aqui a fazer?”. Nunca soubemos dar resposta.
Por isso, enquanto pudermos, vamos continuar a relatar o que conseguimos dizer, imitando-lhe o estilo e o trato. Recuperar o diálogo que mantínhamos pela leitura de cenas destas (blogues), que temos linkados ali ao lado, que muito gozo e aprendizagem nos deu e continua a dar.
Mais importante ainda, é o termos arranjado forma de o bacano do Zé continuar com a malta. Do lado de fora, claro. Porque enquanto não tiver um computador, só o vemos aos domingos. É visita certa.

Alguma palavra que lhe queiram deixar… o e-mail é o mesmo.


Os nossos melhores cumprimentos,

Bruno Miguel Martins – Núcleo Duro

domingo, novembro 25, 2007

Chegou o dia



Não tenho jeito nenhum para grandes discursos. Apraz-me apenas dizer adeus e obrigado a todos.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Prenda d'anos



Hoje completo trinta anos de existência.
Já levei um banho de água fria do nosso Núcleo Duro para aclarar as ideias, e fui chamado ao Director para me notificar que vou sair em liberdade no dia 25 de Novembro. Que melhor prenda poderia ter?

Mas estou assustado.

Um dia destes tive a visita do meu amigo Jorge – um ex-companheiro do Palacete que já saiu – que me colocou a par da situação aí por fora; vive-se em dificuldades permanentes e prevêem chuva e ventos fortes para esta semana. Os empregos escasseiam, o graveto é curto, e a motivação pessoal, por si só, pode não chegar para fazer face aos primeiros encontrões.
Também me fez saber que o País está pobre e preso. Pobre em recursos e em ideias. Preso a contratos dos mais endinheirados onde à mínima falha dum gajo que daqui sai está fodido e a tendência é uma recaída. Não daquela merda que faz rir, porque nunca estive para aí virado, mas sim da alteração climática do sistema. Das ondas de choque que irei encontrar.

Mas, como diz uma nossa leitora amiga, vou tentar “transformar a revolta em luta”. Tentar acertar o passo em novos caminhos e com outros companheiros. Tentar dar razão ao dito tão popular de que o crime não compensa. E pode acontecer que tudo não passe apenas dum susto às primeiras impressões.

"sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar para mudar o final".


Grato pelo vídeo, Pearl.



Fiquem bem.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Reintegração



Ao contrário do que se possa pensar, uma prisão, em princípio, não é um hotel ou colónia de férias. Já uma vez referi que temos mais perigosidade por metro quadrado aqui dentro deste Palacete da que está para lá destes muros altos que nos cercam e nos isolam da comunidade certinha. No entanto, a violência e a criminalidade está em todo o lado e tende a alastrar cada vez mais. Venham de lá governantes, juízes, fazedores de opinião, dizerem-me o contrário.

O que me fode é que somos vistos como um todo; do tipo “…ai e tal, se o bacano fosse um gajo à maneira não estava lá dentro.”. Não é bem assim. Um dos erros na reabilitação de muita malta que aqui está, é precisamente a nossa Justiça Judicial que mistura alhos com bugalhos. Por exemplo, o meu crime não tem nada a ver com o “Senhor Televisão”. Nada tem a ver com os actos praticados um dia na Cova da Moura ou em Sacavém, e muito menos relacionado com rapto de crianças ou assaltos onde morrem pessoas. No entanto, grande parte dos casos que sei de cor, já estão lá fora.

Posso lixar-me por dizer estas merdas todas, mas sabemos que certos gajos que tratam destes assuntos (Ministérios, Assistências Sociais, Instituições de Reabilitação, e etc.) estão-se a cagar para o desenrolar de soluções da malta que ainda tem chances. É o “nine to five” duma ocupação bem remunerada, aliadas a uma burocracia arreliadora, e acabou.

Claro que não é minha intenção branquear os disparates que muita desta malta cometeu, e que merecem estar “dentro” os anos todos que os tribunais lhes aplicaram. Mas por outro lado, existem certos e determinados indivíduos que, não fosse um laivo de irresponsabilidade que pode acontecer ao mais pintado, numa sociedade cada vez mais desequilibrada, teriam hipóteses de uma reintegração adequada na sociedade caso se olhasse mais atenciosamente para o cadastro e o perfil de cada um. E tenho aqui vários companheiros que estão perfeitamente sensibilizados para refazerem a vida novamente.

Por isso, muitas vezes, duvidamos se não faz mais sentido ficarmos onde estamos. Não por medo de enfrentar o que quer que seja, mas por apenas constatar que a reintegração possa não resultar.
E depois lá vamos nós. Voltar às “origens da vida fácil”, já que os exemplos dos colarinhos brancos e engomados são suficientemente gritantes e apelativos. Leiam os jornais, e podem dizer-me se estarei enganado.

Estar preso é fodido, mas não entender, ou tentar esconder esta realidade, é bem pior.

Bom fim-de-semana!

domingo, outubro 28, 2007

Porta aberta



Esta nova lei do Código Penal proporcionou-me umas “férias” cá dentro. Autorizadas, mas sem direito a subsídio. Tipo semi-liberdade para tratar dos assuntos que me podem colocar lá fora um pouco mais cedo do que a lei que me penalizou estabeleceu como limite.

Se o Procurador não recuar, saio antes do Natal. Tenho as garantias exigidas: trabalho, habitação e uma pulseira. O Juiz que nos ouviu é um bacano. O arrependimento assumido e o “bom comportamento” escarrapachado na avaliação do Palacete contribuíram para a decisão que me pode ser favorável em menos de três tempos.

Quero começar uma vida nova e ficar “limpo”.
Mas aqui reside o busílis da questão: a adaptação. Quer dum gajo que sai da prisa, quer dum tipo qualquer que pode ter uma certa relutância em aceitar para empregado um ex-presidiário. O Programa do Governo é omisso nestas situações e a Assistência Social não funciona sem ter indicações viáveis em casos de reintegração específica.

É a merda do costume.
E como já estou habituado, a coisa pode resolver-se. Vontade de me reabilitar foi coisa que sempre tive. Falta a outra parte. A mais custosa: Legislação, meios de adaptação, oportunidades…

Eu desenrasco-me.
Tal como cinco por cento da malta que sai destas situações. Os outros 95 são os que me lixam a carola por questões humanitárias e de integração. Mas não sou eu que tenho a pasta da Justiça...

domingo, setembro 16, 2007

O cabrão do Código Penal


Foto Público

“Quem esteja actualmente a cumprir prisão preventiva - por um crime cuja pena máxima se situe entre os três e os cinco anos - será libertado a partir de 15 de Setembro.” (DN)

Como é habitual, um gajo aqui levanta-se cedo. Mas hoje, particularmente, levantei-me com uma disposição incrível face à entrada em vigor do Novo Código Penal.
Estranhei já a presença, ou a falta dela, de três tipos com barba de três dias no pequeno-almoço desta manhã onde era habitual cruzar-me; disseram-me que ao abrigo da nova legislação do cabrão do Código tinham saído no sábado à noite. Fiquei em pulgas. E porquê? Porque o sacana do legislador escolheu uma data filha-da-puta para a abençoada lei ser homologada. É que o meu advogado está de férias (também tem direito a um descanso merecido, claro) e só hoje é que os meus cordelinhos exteriores lhe fizeram saber “quando é que eu saio?”.
Como tenho pendente alguns recursos no meu processo com efeitos retroactivos, estou perfeitamente aplicável se não “houver fortes indícios de crime doloso punível com pena superior a cinco anos”, como diz a nova lei.

Mas o estatuto social que tenho vincado na educação que trouxe lá de fora, adicionado à experiência prisional que aprendi cá dentro, qualquer coisa me diz que as coisas não estão bem feitas. E nessas merdas, sou um mariconço do caralho porque duvido que estes gajos voltem cedo demais ao convívio do nosso Núcleo Duro. Ou por deficiência de trajecto, ou por anomalias de projectos aplicáveis. E se optarmos por uma análise mais elaborada dos tipos que ganham mil euros num programa de televisão para dar palpites, sabemos que a maior parte da malta está a esfregar as mãos de contentamento apenas por conveniência do sistema.
E provavelmente, o ministro também não dá por isso.

Mas que acompanhamento vão ter os tipos que já estão aqui há dois anos e tal que são lançados à rua pela directriz governamental saída e aprovada pelo Diário da República e Presidência incluída? Alguns deles sem família estável. Muitos deles “agarrados”. Outros sem final contabilizado quanto a perspectivas de trabalho. De reintegração adequada. De aceitação. Sem falar nos gajos que violaram crianças. Pedófilos. Matadores incorrigíveis. Traficantes por excelência que encurtam a vida de muitos filhos da malta que sabemos pelos jornais. Desculpem lá, mas não era assim que eu fazia as coisas.
Nestes tempos que correm, qualquer doença do foro comportamental tem cura. Pode é levar mais algum tempo dos quinze dias que o MP achou curto para a aprovação.

A lei que impera no Palacete é “cada um por si”. Lá fora, vou adoptar a do Benfica: -“et pluribus unum” – e tentar esquecer que passei por cá. O meu 'ad vocatus', com a ajuda do Santo Ivo, há-de me ajudar a sair desta, já que a legislação mo permite. Depois é só comprar um computador que o eng.º Sócrates e a TMN de mãos dadas andam a proporcionar a custo apetecível, para me manter no activo e em contacto. E talvez uma pistola. Preferencialmente portáteis.

Bye, bye!

domingo, setembro 09, 2007

As putas das seringas



“A Coordenação Nacional para a Infecção VIH/sida (CNI) anunciou que os kits do programa de troca de seringas vão passar a incluir dois novos utensílios: recipientes e carteiras de ácido cítrico, que quando partilhados podem transmitir doenças como o VIH/sida ou a hepatite C.”
Diário Digital

“O programa de troca de seringas, se aplicado nas cadeias portuguesas entre 1993 e 2001, teria evitado cerca de 650 novas infecções por VIH/Sida e o Estado teria poupado 177 milhões de euros.”
JN

“Lisboa, Paços de Ferreira (estes primeiro), Faro e Montijo. São estes os quatro estabelecimentos prisionais que vão ser palco da experiência-piloto de troca automática de seringas.”
DN

Ora bem, o programa “Diz não a uma seringa em segunda mão”, que será aplicado a partir do dia 24 deste mês a título experimental no nosso Palacete, conjuntamente com o EP de Paços de Ferreira, visa evitar a contaminação e a propagação de doenças infecto-contagiosas, como a VIH/Sida e a hepatite C no meio prisional. Mas isto vai dar bronca.
Primeiro, porque os senhores de fatos caros e discursos bem falantes, desconhecem na totalidade o modo como se vai processar a distribuição e em que condições que o CNI tem em relatório. Além disso, os gajos novos que vêm aqui parar já trazem a receita no curriculum satisfatoriamente particular e não tenho conhecimento que haja resultados optimistas aí por fora que nos faça pensar que se está no bom caminho.

Longe de mim pensar que o ministro é saloio ou duvidar que os exemplos que vêm de fora possam ser ajustáveis às nossas realidades, porque por outro lado, os guardas prisionais com quem a gente lida mais de perto, já fizeram saber que não concordam com a implementação deste Programa sem que haja um debate a nível nacional, por especialistas no assunto, que garantam a eles próprios uma segurança acrescida e conhecer o modo como se trata do assunto em Espanha, Alemanha ou Suiça, onde já se pratica essa treta desde 2003 para que se saiba o que estamos a falar.
E aí, já mete outro ministério ao barulho.

E aos gajos que necessitam dessas merdas, vão-lhes injectar o quê? Metadona, cocaína pura, um bagacinho lá da terra? Há aqui qualquer coisa que não entendo. Então nós que temos um programa interno de desintoxicação, acompanhamento psiquiátrico, ajudas de reintegração e o diabo a sete que, mesmo assim, não custam os treze milhões de euros que vão gastar em Monsanto, vamos passar a usar seringas autorizadas?

Epá, metam estes gajos todos que cometeram crimes por estarem "agarrados" àquilo que faz rir em liberdade, e deixem-me criar aqui cavalos, galinhas e outras aves raras, que me acordam de manhã cedo dos pesadelos que qualquer um tem numa vida normal.

Prometo que ofereço mais que os 60 milhões da venda à Parpública com que o governo fechou negócio com a "minha casa". É só uma questão de ter a chance de ser o Alves dos Reis do século XXI.

segunda-feira, agosto 20, 2007



Desde miúdo que tive sempre a mania de escrever.
Escrevia nas casas de banho dos supermercados, nos bancos de jardim, nos cadernos das gajas da escola. E nunca fui preso por isso. Agora na prisa, temos um jornal de parede onde relatamos experiências, opiniões e muitos disparates. Todavia, neste Agosto em que se comemora mais um aniversário do dito cujo, tivemos uma colaboração suplementar: a dos nossos visitantes que nos reportaram em papel timbrado (Word) preciosos textos que já estão na parede para gáudio de quem nunca acreditou que a regeneração também se pode fazer pela escrita.

A todos eles agradecemos:
* Eduardo
* Elipse
* Maria
* A já saudosa Nela Cintra
* Peciscas
* Saddam
* Joana Lopes
* Py
* Susana
* Ana M.
* A miúda Thita

domingo, agosto 12, 2007




Provavelmente, vamos estar menos activos durante uns tempos devido ao facto de termos ensaios para a final do XII Festival de Música Inter-Prisões que se vai realizar no Palacete a 1 de Outubro. Precisamente o dia mundial da dita.

As eliminatórias decorreram em Pinheiro da Cruz e no EP de Leiria, e os doze grupos apurados estão preparados e/ou a prearar-se para o evento. E além de sermos nós a organizar a coisa, esperamos ganhar outra vez se não se importarem (rs).

A ideia do desafio à maltinha que nos acompanha mais de perto continua de pé. Mas não é urgente.

Bom dia.

terça-feira, agosto 07, 2007

O défice democrático



Um dos locais onde o défice democrático é mais abrangente, é sem dúvida nenhuma numa prisão. E percebe-se porquê; somos indivíduos que perdemos o estatuto normal de cidadania ao não termos respeitado a lei que os legisladores, os democratas e outros ditadores, impuseram para um melhor funcionamento em sociedade. As chamadas regras de simplificação, e obrigatoriedade, para que os cidadãos no meio de um envolvimento de progresso e vivência social não possam alterar e estejam sujeitos a sanções se mudarem o rumo a essa ordem de coisas.

Curiosa é a forma como lidamos com esse défice aqui, no Palacete. Aprendemos depressa a lei da reclusão e se falharmos nessa abordagem, o melhor que nos pode acontecer é estarmos fodidos com quem manda aqui. Portanto, e por princípio, nada de fazer ondas se quisermos ter alguns direitos de exclusividade. Tal como a oportunidade de termos este espaço.

Outra curiosidade é aquela a que temos acesso – via informação virtual – que nos dá a conhecer outros atropelos à democracia, e que aqui davam logo direito a trinta dias de solitária. E ultimamente são demasiados os casos em que esse próprio défice democrático está posto em causa, sobejamente divulgados nos mais diversos blogues, e outros sites de opinião, onde entramos pela porta do cavalo. Divulgá-los aqui seria exaustivo, mas quase toda a malta está a par dos últimos casos onde esse défice é mais latente.

Para não me confundir com ideias vindas do exterior, para além da comunicação social a que temos acesso, os blogues são a coisa mais gira que nos aconteceu neste último ano de reclusão. Permite contactar, manter diálogos e cumplicidades que muitos Tratados europeus e outros interesses estrangeiros não conseguiriam convergir favoravelmente.

Por isso, é provável que estejamos tentados a lançar um desafio que temos na ideia a todos quantos nos aparecem por aqui.
Esperem pela pancada!

domingo, agosto 05, 2007

A fuga



Domingo é um dia de fuga. Dos que fogem ao trabalho e da cidade. Dos que fogem ao sistema e aos impostos. Dos que fogem à rotina e depois batem com os costados às nove da noite nas celas de apresentação que temos por aqui. E foi precisamente num domingo que Deus fugiu depois de se ter apercebido que a Obra estava feita, segundo consta. Tal como os prisioneiros aliados da 2.ª Guerra Mundial o fizeram no Estádio Colombes, em Paris, no que os alemães julgavam ser mais uma jogada de propaganda nazi e se traduziu num embaraço que Karl von Steiner teve dificuldades em explicar.

A nossa fuga ao domingo tem outra vertente; fugimos às tarefas e temos rancho melhorado. Vestimos de lavado os sonhos e sentimentos, visto a maior parte desta malta estar de perto com a família. E é giro, e ao mesmo tempo angustiante, garanto. E por uma questão psicológica e social, já nos apercebemos que toda a gente gosta de fugir. Até os tipos que escrevem em blogues.

Nós sendo regra, somos os únicos que podem fugir à excepção; precisamente porque é difícil fugir daqui e talvez a fuga possível seja aquela daquilo que somos.
Por isso, escrevemos ao domingo.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Madeleine McCann (2)

Passados que foram três meses no desaparecimento de Madeleine McCann, as autoridades já não têm muitas hipóteses, nem esperanças, de encontrarem a menina. Estes alarmes, como o da Bélgica, estão apenas ligados à exposição mediática que os pais conseguiram com o apoio de muitos países. Um tipo qualquer que beba uma cerveja a mais pode muito bem comparar a Paris Hilton à Carolina Salgado desde que o seu subconsciente seja alimentado pela atracção do caso e esteja para aí virado.

Na falta do nosso amigo Artur Varatojo, um especialista em Criminologia que nos visitava regularmente para podermos sustentar melhores alicerces na abordagem do assunto, tivemos nova conversa com os companheiros condenados pela prática destes crimes e todos eles são unânimes em afirmar que a Maddy desapareceu, pura e simplesmente, da circulação. Tal como o Pedro, a Cláudia, a Rita, e infelizmente tantos outros.

Gajos habituados como nós a viver em clima de tensão e alerta total, sabemos relativizar as hipóteses de sobrevivência. Quer seja em assaltos, troca de mimos da malta do bairro, trespasses nas grandes lojas de produtos menos próprios, ou assassínios. Na questão de se tratar de rapto acontece a mesma coisa, porque um criminoso de excelência é comparado a um polícia de alto gabarito; tem que estar tudo sob controlo.

E o(s) gajo(s) que fez, ou fizeram isto, não brinca(m) em serviço.
Pudera eu acreditar que todas as crianças pudessem aparecer e tivesse a possibilidade de dar um tiro nos cornos aos filhos da puta que se prestam a essas merdas.

Quem nos lê, faria o mesmo? Sabendo que nos esperavam vinte e muitos anos de degredo?

segunda-feira, julho 30, 2007

Tá um calor do caraças



Traçando a riscos pretos o quadro que fazemos daqui de dentro do que se vai passando aí por fora, asseguro que não vendíamos nenhum. Mais facilmente cantávamos o fado no eléctrico 28 para angariar uns trocos, ou entrávamos numa daquela de vender na Feira da Ladra alguns excedentes da família para comprar aquilo que faz rir. (que felizmente não é o meu caso)

Personalizando a coisa pelo lado cómico da questão, admito circunstancialmente que não perco um episódio dos Simpsons. E se pelo lado romântico tenho um fraquinho pela Maria Sharapova, admito igualmente que detestamos o Bush, o Alberto João e aquele homenzinho minúsculo que quer chegar a PM.
No entanto, na vertente social específica, e mesmo correndo o risco de me espalhar ao comprido, a ideia defendida por Magalhães e Silva de ter “advogados em todas as 248 esquadras da PSP e 400 postos da GNR, 24 horas por dia, como meio de assegurar o respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos”, deixa-me de boca aberta. E porquê? Porque tenho gajos aqui, que se dizem cidadãos, que preferiam as paredes das esquadras acolchoadas. (rs)

Num cenário ainda por fazer e muitas histórias por contar, se o candidato ao cargo de bastonário da OA soubesse da missa a metade, “os direitos, liberdades e garantias” nas esquadras e postos de polícia saberia que é tabu.
Nunca renunciei à minha culpabilidade. Também nunca omiti que me sinto arrependido. Mas que faz um calor do caraças nos “interrogatórios” das forças de segurança, lá isso faz.
Que o diga a cabeça de Carlos Rosa encontrada em Chelas enquanto o advogado estava a jantar.

Trinta milhões de euros por ano e emprego a 2600 advogados depois, veremos no que vai dar.

terça-feira, julho 24, 2007

Férias



Para além do Natal de família, e da própria liberdade claro, são as férias dos outros que nos fazem mergulhar na auto-crítica e abraçar o arrependimento. Falamos da população reclusa portuguesa que andará à volta dos 42% pela última estatística a que tivemos acesso.

Como portugueses que somos, somos desenrascados e minimizamos os estragos que essa angústia provoca. Do tanque fazemos uma piscina e andamos de calções e descalços como o faríamos numa praia de Miami. Nem sempre são permitidos churrascos mas, ainda assim, quando os há, convidamos os vizinhos das celas adjacentes como se vivêssemos em Beverly Hills e a coisa ultrapassa-se com o nosso grupo musical Tass Bem a fantasiar como se estivéssemos no Festival de Paredes de Coura.

Por isso, nós os condenados por delitos menos graves, fazemos do mês de Agosto o nosso mês de férias. Discutimos o estado da nação, congratulamo-nos com os resultados obtidos na escola pelas nossas crianças (deles, que eu não as tenho) e realizamos eventos onde a escrita, o desporto e outras artes lúdicas têm o seu próprio espaço.
Este ano acontece que fomos um pouco mais longe com esta oportunidade que as novas tecnologias facilitam. Temos recebido inúmeros mails com textos que vão enriquecer o nosso Jornal de parede e agradecemos a todos a partilha.

Pessoalmente, não quer dizer que sejam umas férias de luxo. No entanto, sempre dá para desanuviar as saudades que um gajo tem de uma bejeca bem fresquinha, de uns mergulhos na Praia da Rocha, e na visão que os corpos escaldantes e bronzeados das gajas boas me fazem recordar.
Mas tá quase. Posteriormente a este mês de Agosto, talvez o próximo consiga aproveitá-lo de outra forma. Uma forma mais real. Vai depender do meu advogado e da abertura que o novo Código de Processo Penal possa me incluir.

Entretanto, vou-vos vendo por aí.

sexta-feira, julho 13, 2007

Jornal de parede



Enquanto esperamos resultados da Lei da Atracção, e se vai descobrindo que, afinal, há mais gente ilustre e pública com telhados de vidro e o drama autárquico se vai arrastando, pensámos em seduzir madrinhas e padrinhos de reclusos. A coisa é fácil de adoptar tendo em vista que daqui ninguém lhes irá fazer mal.

A ideia consiste em elaborarmos mais um aniversário do nosso Jornal de parede com textos sobre assuntos que são do agrado de quem o tem feito neste últimos anos de reclusão. E temos alguns tipos que quem os visse ou ouvisse não os levava presos.
Trata-se, a meu ver, de uma medida pedagógica de elevado grau de sensibilidade social – sim, porque nem todos os que aqui moram, andam armados em parvos e aos tiros e às facadas às pessoas – que proporcionaria outra visão de ver as coisas.

Como se pode perceber, não vou obrigar nesta sexta-feira 13 o “Marmitas” a ler Liev Tolstói ou a ouvir a ópera Des Teufels Lustschloss de Franz Schubert, quando a vida dele foi sempre uma guerra constante onde Deus nunca existiu e que uma nota de música para ele é um calhau. Ou nunca me passaria pela mona acreditar que o “Moisés Maia” (um dos ciganos mais espirituais que já conheci) se pusesse aqui a tocar castanholas como se fosse o Paco de Lucia em versão light. Nada disso.

O que peço, é tão simplesmente que nos enviem, por gentileza, via e-mail clicando ali ao lado, um parecer (que a gente não paga em numerário como é moda corrente no Banco de Portugal e nos consultórios de advogados) sobre os assuntos que mais preocupam alguns dos voluntários do nosso Núcleo Duro que aderiram a esta iniciativa interna. Eu incluído. E passo a apresentá-los:

- Jaime “Canhoto” Silva; país, pobreza, fome.
- Joaquim “Negrão” de Angola; exclusão, racismo e África.
- Tony do Bairro Alto; curtir, futebol e fado.
- Zé “Prisas” Amaral; amor, ódio, paixão.
- Victor “Seringas” Pais; sida, doença, cura.
- Rafa “Verde e Amarelo”; favelas, meninos da rua e o futuro.

Não há pressa nem pedimos que se identifiquem. Mas em Agosto gostaríamos de ter afixado o que nos chegar para toda a gente ler o que se pensa aí por fora.
Talvez até, fazermos disso as nossas próprias Sete Maravilhas. Ou mais.

Ficaríamos gratos.

ps - só mais uma coisa; gostaríamos de ter a permissão de também publicar aqui. Pode ser?

terça-feira, julho 10, 2007



“Tudo o que somos é o resultado dos nossos pensamentos.”

Buddha



Chegou-nos por mão amiga um segredo: a lei da atracção.
Pelas primeiras leituras e visionamento, estamos a descobrir o Cosmos e as suas forças. A relação do E = mC2 de Einstein, a vibração do pensamento e outras ferramentas que o nosso inconsciente possui. Dizem-nos que basta apenas desejar o que queremos de melhor para nós e a todos quantos nos rodeiam para modificar o nosso modo de vida.

Estamos seriamente a reflectir sobre isso e desconheço se estarei apanhado por alguma bóia de salvação – versus misticismos, religiosidades e outras tretas – ou aquilo é mesmo assim?
Por isso pergunto: alguém sabe no que nos estamos a meter?

domingo, julho 08, 2007

Um tiro na tola



Agora que é público (mas sabemos de fonte segura que o caso está a ser abafado), temos toda a legitimidade para divulgar os relatos de gajos - meus companheiros de cela - que sempre disseram que muito boa gente come à pala da droga. Eles é que “tiveram azar e foram fodidos” é a desculpa. Mas por uma questão de princípio e limitações internas a que estamos sujeitos, não o fazemos.

O que nos espanta é o deixa andar em que esta sociedade vive, que se diz justa e livre, e não pune e castiga os órgãos que devem ser de incontornável seriedade, como fazem com os nossos delitos. A Polícia Judiciária, ou qualquer outro órgão institucional que garanta o funcionamento quase perfeito da sociedade em geral, não pode ficar de fora.

E se fizermos uma introspecção a casos que estão a cair no esquecimento global e a inúmeros branqueamentos por forças ocultas deste país, podemos verificar que a Justiça, essa diva de olhos vendados, se a venda lha tirassem, com outro olhar sentiria que não somos só nós que merecemos estar aqui.

Parafraseando o sapateiro dum grande filme português: ou há moralidade ou comem todos.

quarta-feira, julho 04, 2007

Rir é o melhor remédio



A crer no acordo do Novo Quadro de Apoios Financeiros da União Europeia, os investimentos - públicos e privados ao nosso país com uma data de siglas por detrás - ascendem a mais de quarenta mil milhões de euros.
Dasse…quarenta mil milhões é muita massa. E agora com a presidência portuguesa à cabeça poder-se-á perguntar: vão ser investidos em quê?
Estando nós limitados a questionar o Sr. Primeiro-Ministro sobre “selectividades” e “escolhas políticas rigorosas” que a Agência Lusa noticiou como sendo palavras dele, no entanto, não deixamos de pensar sobre a finalidade na utilização de tais fundos comunitários que da proveniência poucos sabem.

Dando de barato, poderia acrescentar que a aposta nas “novas tecnologias” não adiantam muito se as pessoas não forem formadas. A também crer nos números de escolaridade e formação profissional da rapaziada toda que habita este cantinho à beira-mar, não se prevê, ao seguirmos o percurso das reformas sociais que este governo tem quase imposto, estejam para aí virados. Se calhar, novas estradas. Algures uma ponte, um aeroporto. Uma estância balnear ou mais dois ou três estádios de futebol, enquanto se vão fechando escolas, centros de saúde, maternidades, e até já se fazem negócios com a venda das prisões.

Sei que somos olhados como sendo ninguém. Malta reles e estupidificada.
Mas de qualquer forma, mesmo sem o canudo de engenheiro, sabemos que um edifício se constrói pelos alicerces. E as fundações são importantes porque os terrenos podem ser movediços e ter problemas de estruturas frágeis. Provavelmente, enquanto houver fome e miséria, desemprego e exclusão, gente iletrada e doente, não há milhões que cheguem.
Nem que fossem quatrocentos mil milhões, dizemos nós.

terça-feira, junho 26, 2007

Monsanto



É a aldeia mais portuguesa de Portugal, dizem. Já a homónima, que é Estabelecimento Prisional e onde também "moram" cidadãos, nem por isso.



Saiba porquê no Blogo Social Português ou em Vidas Alternativas.

Uma visão das coisas



Na convivência social da população reclusa, muita malta vê-se como “os maiores”. Os gajos que conseguem “fazer mais estragos”, dar cabo “desta merda toda” e até há quem tenha como lema “Pão, paz e pumba”. Isso aumenta-lhes o Ego e leva-os a crer que não existe ninguém que os consiga travar.
Mesmo assim, e no sentido inverso aos ponteiros do relógio, muita das leituras que se fazem desta corja de bandidos como eu, são fantasiosas. A maior parte deles espera apenas que o seu período de castigo e paga acabe. E quanto mais depressa, melhor.

Na minha idade, sei o quanto difícil é afirmar-nos neste hexágono. Criar um espaço próprio e ser respeitado por qualquer fidelidade que valha a pena transmitir como valor adquirido, mas onde falta sempre qualquer coisa para entender melhor. Uma estrela-d’alva, a coisa certa. E lendo, relendo, e fazendo um balanço pelas passagens que fazemos a quem escreve neste novo fenómeno de leitura, apercebo-me que é assim em todo o lado. Seja em Aveiro, no Porto, em Évora ou na Assembleia da República.

Nunca fui apologista de ser pau-mandado (estou a pagar essa arrogância) e sempre me pautei por tudo aquilo em que acredito: justiça, solidariedade, trabalho. Mas tive “azar” e vim parar a um sítio totalmente desconhecido de há uns anos a esta parte em relação ao meio onde vivia. Perdi o lugar cativo na esplanada a ver passar as gajas boas. Perdi quem julgava amigos. Perdi o emprego e os benefícios sociais. Felizmente não deixei nenhuma chavala pendurada e ganhei o sol aos quadradinhos mais a tranquilidade para refazer a minha vida.

Se por um lado, a experiência a princípio foi assustadora, pelo outro, deu-me uma nova visão das coisas. Aqui, o dia-a-dia vive-se mais solitário, é certo, mas menos superficial. Os problemas resolvem-se de olhos nos olhos e partilha-se tudo; o barbeiro, fotos de família, histórias das nossas próprias experiências. Fazemos amigos sérios com facilidade e essa amizade não é uma palavra vã nesta miscelânea de rapaziada intolerante, condenada, quase perdida, e a entreajuda faz parte das nossas refeições diárias.

A ler pelos assuntos que são o mote dessa nova sociedade em construção, duvido que aí fora se possa dizer o mesmo.

quinta-feira, junho 21, 2007



“Existe dois tipos de pessoas que são absolutamente fascinantes: as que sabem absolutamente tudo, e as que não sabem absolutamente nada”

Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde


Desde que esta experiência na Internet em Maio do ano passado, depois de um rápido curso de informática no EPL, nos possibilitou mais-valias no campo da Educação e Ensino, apraz-me escrever que aumentámos o número de interessados em desenvolverem esforços para se tornarem melhor qualificados.

Este desenvolvimento fez com que se alterassem algumas regras rígidas para tratamentos especiais. É o caso de A, B. e C., que estiveram em exames esta semana em duas Faculdades de Lisboa. Economia Política, Psicologia e Gestão de Empresas, são as escolhas que estes gajos perfilharam para poderem ter acesso ao Ensino Superior com acompanhamento interno. Mais. Belas Artes e Língua Portuguesa também constam da escolha de mais quatro tipos malparecidos que passaram a frequentar o Ensino Básico do nosso Palacete.

Isto para não falar na tentativa de nos tornarmos parceiros no projecto ‘Visiting In Prision’ (VIP) que envolve cadeias da Alemanha, Dinamarca, Espanha, Finlândia, Itália, Polónia, Portugal e Reino Unido, e que está a ser testado no Estabelecimento Prisional de Braga, ou sermos aprovados no Processo de Bolonha.
Mas para isso teríamos que contar com um esforço enorme do Governo e na vontade política de alguns Berardos que temo possam não existir no sistema prisional português.

De qualquer forma, é um sinal gratificante a evolução do nosso “Cavalo de Tróia”: o de fazer com que não nos votem ao ostracismo e possamos reintegrar na sociedade o maior número destes fulanos que se portaram mal mas a quem podem dar a chance de refazerem o futuro. Quer um exemplo?

sexta-feira, junho 15, 2007



Soubemos hoje que a dona Isabel Stilwell é a nova directora do gratuito Destak.
E bastou-nos dez minutos na pesquisa ao Google para sabermos mais coisas sobre a senhora. Tal como ter sido redactora no DN, colaboradora na Elle e na Marie Claire, além de fundadora da Pais & Filhos e que, a nosso ver, até é uma cota bem parecida.

Mas o que vem a propósito é o Editorial que ela assinou no assumir do cargo. Destaka a prioridade de assuntos que já referimos neste espaço, mas que é sempre importante relembrar: as armas ilegais, os guetos urbanos, os miúdos de armas na mão.
Pelo estilo da escrita e o curricular que a tal pesquisa nos mostrou, a madame vive bem e escreve livros. E preocupa-se com estas merdas. Dou-lhe razão. Hoje em dia são os filhos destes gajos, meus amigos de cela e outras variantes, que estão na berlinda. Amanhã, espero bem que não, podem ser os filhos dos fulanos e das cicranas que escrevem nos blogues e acontece terem já falado do assunto e julgam estar com o credo na boca ao analisar o caraças da questão, ou assustarem-se da hipótese lhes entrar pela porta dentro. É que conforme esta treta anda, ninguém pode afirmar que está seguro. Nem o António José, que tem um casal de filhos, e até é licenciado em Relações Internacionais, e que por norma e equilíbrio mental, deseja o melhor para o futuro deles.

Ao contrário da análise que um amigo faz de mim, eu não sou doutor. Nem engenheiro ou catedrático, e muito menos possuo pergaminhos no meu curriculum vitae que me façam sentir especial. Sou apenas o produto parido da sociedade que me criou - parece Zeca Afonso, fixe? – mas basta apenas saber, ou estar por perto, destas realidades que não têm nada de virtual, para concluir com um ponto de afirmação. São casos reais de comportamentos juvenis adulterados por exemplos gratuitos de violência infantil, onde as estruturas sociais não encontram solução no volte-face das sociedades modernas, e muito menos os pais deles, na básica estrutura que as sociedades mais avançadas já encontraram.

Sei é que continuamos a debater o problema por baixo, e poucas pessoas se preocupam com o essencial no futuro das próximas gerações. Quase que estava para plagiar o sms sobre o Professor Fernando Charrua que O Jumento (link) teve a ousadia de publicar: “somos governados por uma cambada de vigaristas e o chefe deles todos é um filho da puta”.

Mas,provavelmente, o aeroporto terá prioridade.

terça-feira, junho 12, 2007

Santos? Só populares.



Da alta murada que nos divide das pessoas que estão livres, temos o privilégio de recebermos o som das Marchas em primeiro ouvido. Da Avenida, chega-nos o perfume dos manjericos. Da sardinha assada (que está ao preço das novas tecnologias, já soubemos) e das saudades dos Pateos onde muitos de nós nascemos.

Mesmo detidos, acreditamos que ser de Lisboa é ter alma de poeta e de fadista. É ser Pessoa e ter Linhares no coração. Temos povo na veia, como diz o Aleluia nosso amigo, e sentimos nesta altura uma vontade indómita de estar lá fora. Nos bairros de Alfama e Mouraria. Andar na Madragoa e dar um pulo à Graça, depois de ir a Campolide vindos daquele encantador bairro da Bica. Percorrer as ruas do Alto Pina e descer rumo ao Tejo e ver as Noivas do santo que as tornou tão populares.

Mas daqui… também tá-se bem!

domingo, junho 10, 2007

Os maus e os bons



“A filha do director do Estabelecimento Prisional de Santarém foi morta à facada pelo ex-marido”, noticia o Correio da Manhã na newsletter que nos fazem chegar diariamente. Assassinada, portanto.
Após as nossas condolências enviadas deste Palacete, e revolvendo uns papéis velhos que tenho aqui, continuo a considerar que ninguém está seguro. Nem aqui, nem aí, mesmo que por cá não tenhamos muitas razões de queixa nos últimos anos. As pessoas estão a passar-se, é o que é!

Desde os putos que são cortados à porta das discotecas aos acidentes nas estradas provocados por excessos, já não há manobra para tentar perceber o que está a acontecer nesta sociedade que se diz moderna.
Os exemplos que abrem Telejornais sobre as tragédias que acontecem no mundo inteiro diariamente, dão-me razão. E o silêncio de se estar sozinho numa cela permite-nos ver as coisas de forma diferente. Tal e qual como a malta que escreve nos blogues, agarrados ao teclado durante o dia inteiro. Distanciados dos directos que afligem qualquer um. Da rua, do bairro, da cidade, do país, mas não tanto do mundo, ainda assim.

Hoje, olhando de soslaio para a imensidão de gente que vem visitar os seus parentes, não estranho a miscelânea de raças, de credos, de culturas, que se unem à nossa volta e do receio que penetro no olhar de cada um deles. E não estranho, porque vivemos assim desde que se conhece uma sentença. Ficamos juntos para o melhor e para o pior na fatia desta sociedade menos próspera. Chulos, assassinos, pedófilos, ladrões, traficantes; toda a minha gente vive em uníssono a uma só voz: a da expiação. E sabemos quem somos.

O que me provoca alarido nos neurónios é o já não sabermos distinguir os bons dos maus da fita.

sexta-feira, junho 08, 2007

Devido à morte de um familiar, estive na precária mais longa a que tive direito pelo Código Penal que abrange casos destes. E por vezes me interrogo se fico devedor e grato ou, se por exemplo, se tivesse tido juízo, o rumo das pessoas que fazem parte do círculo da minha vida tivessem melhores dias. Menos angústias e preocupações desnecessárias.

Não sendo um ascendente directo, no entanto, a pessoa em causa mexia com elementos familiares que me estão perto. Ao contrário de mim, nunca fez parte duma "Famiglia à portuguesa", onde a maior parte desta malta se incorpora, mas sim de uma família a sério. Aquela em que os rebuçados, livros e brinquedos, faziam parte dum ritual que perdemos. E são essas pequenas coisas, a que nunca dei verdadeiro valor, que me fazem pensar melhor.

Presumo que não estarei ainda em condições de explicar a morte.
Por muito que me esforce e ultrapasse, há sempre qualquer coisa que me escapa quando tento procurar a perfeição. Parece um paradoxo, mas até o crime pelo qual alguns de nós fomos condenados peca por não ter sido bem delineado e sucedido. Estarei a escrever sobre os meus, mais propriamente. Daqueles que não metem tiros e facadas. Iguais a tantos outros que se praticam diariamente e nenhum de que quem nos lê dá fé.

Daria mais uns anos de reclusão, se possível fosse, para o ter ainda ao pé daqueles que, por razões que me prendem, vejo irrelugarmente.

sexta-feira, junho 01, 2007

Desistir? Nunca!



“Um homem discreto não escreve blogs. Um rapaz atormentado, sim.”
Rui Miguel Brás

É muito capaz de ser verdade.
E atormentados, temos nós aqui aos montes não sendo necessariamente só rapazes novos.
Mas não só. Ao ler esta notícia, lembrámo-nos logo de “Cem Anos de Solidão”. Daquela vila Macondo e da sua vida irreal no meio do nada. Da narrativa de Aureliano Babilónia, que vai morrendo aos poucos, incapaz de resistir ao sufocante peso das gerações condenadas.

Desconhecemos as razões que levaram mais de trezentos reclusos de "il Belpaese" a assinar a sua própria sentença de morte. Leva-nos a crer, talvez, que a esperança de novas oportunidades se apaguem, como na memória dos Buendía, onde só um deles pode ser feliz no encontrar daquele tempo já perdido.

No entanto, tentando-me transpor para a situação de um gajo que leva prisão perpétua, mesmo assim, não consigo descobrir a razão da desistência. Dum acabar numa só vez, como refere o mentor da carta enviada ao La Republica.
Aqui, neste Palacete que está já vendido para a modernização do sistema prisional, a esperança, mesmo sendo a última, nunca morre antes de nós. E vamos tentar dizer-lhes isso.

Logo hoje, em que preparámos uma festa para as crianças que, com um brilhozinho nos olhos nas palavras do poeta, alimentam a esperança destes pais que aqui estão em meu redor voltarem a uma nova vida sem se preocuparem em ser discretos.

Será talvez por isso que escrevemos no blogue, sem necessariamente ser obrigatório estarmos atormentados.

terça-feira, maio 29, 2007



“A ponte é uma passagem/p’ra outra margem…”
Jafumega, 1980


E nós, o Núcleo Duro que edita este blogue atrás de grades, somos as pessoas que mais pontes procuram.

Quase diariamente, não temos muita disposição para festejar o que quer que seja porque, como se consegue perceber, o palco da nossa estadia não é dos mais sugestivos para comemorações. No entanto, esta não devemos deixar em branco.

Faz um ano que começámos a atravessar a ponte que nos liga a um exterior que faz sentido. Que tem retorno e nos ajuda a ultrapassar a solidão. O medo e o vazio. A visão que temos das coisas que nos fizeram vir aqui parar.
Ao contrário da lenda da ponte de Mizarela, esta estava já erguida no meio do tudo. Com o tabuleiro central apinhado de compreensão. De estímulos e incentivos. Animado com outros viajantes que, como nós, procuram trilhos melhores a outras respostas, e foi fácil descobri-la.

Neste ano que passou rapidamente, muitos saíram já para a derradeira tentativa de refazerem a sua própria vida. Infelizmente, muitos mais entraram ou foram transferidos. De qualquer forma, julgo que os que se foram vão mais fortes no sentido de encarar melhor as coisas. Foram-se com esperanças redobradas. Mais enriquecidos por um ano diferente que passaram com esta experiência que nunca esqueceremos.

Por isso, agradecemos a todos quantos nos ajudaram a ultrapassar os dias menos bons. A todos quantos nos galvanizaram e apoiaram. A todos quantos nos enviaram uma palavra de carinho. De amizade. Mesmo sabendo que somos o que somos.
Para além de estarmos gratos, nesta ponte onde ninguém paga portagem, apenas podemos retribuir com a vontade de nos tornarmos melhores pessoas e sair de vez do sub-mundo que foi a desgraça de todos nós.

Contem com a gente!

quarta-feira, maio 23, 2007


Setúbal

Na continuação do projecto “A cor das histórias”, que está a percorrer os estabelecimentos prisionais pela mão do Miguel Horta, em parceria com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, publicamos uma carta curiosa.

Perguntaram-me “como é que as crenças funcionam na prisão?”.
Na minha qualidade de bibliotecário de trazer por cela, respondo que depende. Depende da educação religiosa a que cada um destes manganões foi administrada. Entre outros factores, depende do estado psíquico em que se encontra cada um deles; enquanto existem uns que se revoltam pela sorte madastra que lhes tocou, outros há que se agarram a qualquer bóia que os salve ou lhes alivie a penitência.

A “Missiva a Cristo” do Alex – detido no Estabelecimento Prisional Regional de Setúbal – pode ajudar a desenvolver a opinião que, provavelmente, os que passarem por aqui podem deixar.


"Amado irmão:

Quero antes de mais pedir que me perdoes pelo tardar desta missiva, a primeira que te escrevo. É que tenho andado tão atarefado com a minha vida que dificilmente arranjo tempo para aqueles que mais amo. E depois tenho procurado enganosamente a tua morada, escrita num papelinho algures no fundo de uma gaveta para só agora descobri-la gravada no meu coração, oculta, perdida desde o tempo da minha inocência, tempos antes da minha boca provar o sumo da maçã avermelhada, daquela árvore que nosso Pai nos haveria proibido. Mas tu sempre foste um filho obediente, recto.

Pois é irmão, saudosamente me recordo dos tempos em que o meu coração ainda era daquele barro moldável, livre de impurezas, de vícios, onde nosso Pai tão subtilmente esboçou a sua arte com os seus ensinamentos, onde com todo o seu amor realizou a sua obra, como todas as suas outras. Como fez com todos nós. Foi esse amor que eu perdi, desentendi o verbo! Ou simplesmente soneguei-o do meu peito condenando o meu coração a este turbilhão de emoções que é a nossa existência, que não é mais que o nosso cepticismo, ou medo ao nobre sentimento. Se ao menos o nosso orgulho conseguisse entender que admitir a nossa fraqueza e pequenez é sinal de grande coragem como tudo podia ser diferente... E fui crescendo irmão, erradamente eu vejo, e perdi-me na sabedoria dos Homens, na sua liberdade desmedida, no seu desrespeito. Aquele mesmo desrespeito que tive com as leis de nosso Pai.

E depois amei...antes, apaixonei-me intensamente pela carne, que me distrai, me tenta e seduz, aquela Eva que foi parte de nós, que nos falta e completa, e, é a nossa perdição e a nossa continuação. Essa mesma mulher a que vou chamar de esposa e que me vai fazer Pai, Avô, dar-me outra família.

Como tendemos a infectar, irmão, a parasitar com a nossa falsa omnipotência e uma brutal subjugação a nossa relação com os outros. O que nos trouxe a escolha pela sabedoria, o custo da nossa desobediência, esse doce veneno que nosso pai caprichosamente nos deixou ao alcance de um braço, se continuamos a agir como os restantes animais selvagens desprovidos de racionalidade e misericórdia!?

És tu meu irmão aquele retrato fiel que nosso pai pintou para o homem, um homem sábio, humilde, misericordioso, piedoso e solidário. Tu sabes o quanto te tenho pedido, naqueles monólogos em forma de oração, para me ensinares a compreender melhor os desígnios de nosso Pai. Perdoa-me irmão as vezes que teimosamente não te abri a porta, apesar da tua constante presença, da tua eterna omnipresença. E como um irmão mais velho tens-me guiado e amparado, dado esperança, tens feito de mim um ser melhor apesar de todas as minhas falhas e pecados, sacrificaste-te por nós, por toda esta terrena família. E inundas a nossa alma de intensa luz, de uma serena paz, de uma inabalável Fé. Por isto em nós és Rei coroado, não com ouro, mas com gratidão e amor.

Por hoje me despeço de ti, irmão, confiante que jamais te vou esquecer."

Alex - E.P. Setúbal 8/Março/2007

sexta-feira, maio 18, 2007

Campo de afectos



Uma leitora, visivelmente incomodada com a leitura que fez numa recente visita a um determinado estabelecimento prisional, presumo, escreveu-nos a relatar as suas preocupações. A coisa reporta-se ao facto de ter presenciado que existe pouco afecto durante esse período entre os familiares e o recluso a quem vão ver. No mínimo de 15 em 15 dias, segundo diz. Os sentimentos, ou a falta deles, incomodam-na. É normal, já que estamos a falar de pessoas fora destas lides diárias. Porém, nestes homens que viveram toda uma vida de dureza social, transgredindo as leis e regras que a sociedade impõe, a cena é absolutamente justificada, não o sendo tanto justificável quanto baste, diga-se de passagem.

Em princípio, a diferença dos graus de sensibilidade entre quem leva uma vida certinha e aqueles que vêm cá parar dentro é fácil de adivinhar. Um gajo que opta por desenrascar-se na vida, tentando não fazer nenhum e viver à custa do esforço alheio, está-se a cagar para a música erudita, para a poesia e os ensaios de Jorge Luís Borges.
Do lado contrário, todos quantos se perfilam nos ensinamentos de Buda ou de Jeová, de S. Francisco de Assis ou do padre Borga, é natural que a visão humanitária que têm sobre esta gente sofra algumas transformações que incomodam os mais sensíveis.

Claro que esta alusão não se aplica a todos os encarcerados. Sabemos disso. Eu, por exemplo, emociono-me com algumas cenas do “Titanic” (ainda não percebi bem porquê) enquanto outros deliram com o canibal Hannibal Lecter. É crível dizer-se que vivemos num mundo animalesco, onde a sobrevivência é fundamental e onde testemunhamos todos os dias injustiças e assistimos, pelas leituras que fazemos, a imensas desigualdades. A relação entre familiares e reclusos não foge à regra. A excepção é que poderia talvez ser diferente.
Mas toda e qualquer governação, por mais justa que pretenda ser, não se compadece ou sobrevive a incentivar campos de afectos. É mais fácil jogar com sentimentos e, infelizmente, isso é coisa que não se gasta muito por aqui.

Como já estamos habituados, não nos chocamos com a preocupação da nossa querida leitora e aproveito para plagiar o que diz o outro na tentativa de explicar o inexplicável: “Parecendo que não, facilita!”

terça-feira, maio 15, 2007

Enquanto todos esperamos o melhor desfecho para o caso de Madeleine McCann, procuramos encontrar soluções para os tipos que podem julgar que estão perdidos. O projecto “A cor das histórias” do Miguel Horta, em sintonia com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, segue a sua caminhada para o Estabelecimento Prisional do Montijo já em Junho.

Enquanto assistimos à tomada da cidade de Lisboa por pessoas que tudo querem fazer por ela menos melhorá-la, soubemos que o artigo de Alexandra Marques no DN teve consequências positivas no que diz respeito a todos estes manganões que, aqui e ali, em todas as prisões portuguesas, continuam à espera de se fazerem ouvir.

E hoje, trazemos ao conhecimento de quem aqui passar uma viagem. Uma viagem real. Relatada pelo autor na primeira pessoa, o “Vítor”, no Estabelecimento Prisional Regional de Setúbal a residir, esperemos que por tempo curto.


A Esfinge - Guardiã das pirâmides de Gizé

De Lisboa ao Cairo


"Ao saber de tal, não pensei viver tudo aquilo que vi, ouvi e cheirei. Sabia eu pouco sobre um país rico em cultura, sabia o mínimo, apenas uma civilização com 6 mil anos de história. Vou contar algo incrível!

Uma cidade cosmopolita igual ou maior que qualquer uma do ocidente com cerca de 12 milhões de habitantes. Dá para imaginar? Tive a sorte de lá viver 6 dias com tudo de incrível que se possa imaginar, do tipo "Mil e Uma Noites". Saí do hotel, pela manhã, com a intenção de ir ao plateu de Gizé, onde se situa a maior concentração de pirâmides e esfinges de todo o Egipto. Ao chegar ao local, aproximou-se de mim um homem de sorriso jovem, apesar de bastante idoso e com pouquíssimos dentes, como se debaixo daquela pele grossa e enrugada se escondesse um rapaz de rosto liso ainda imberbe. Negociei o aluguer dos cavalos com ele, a minha intenção era ir de camelo mas encontravam-se todos alugados a uma excursão de italianos.

Então, lá segui de cavalo pelo deserto com as pirâmides no horizonte.
Conforme nos aproximava-mos, menor era a minha respiração, não por medo, mas pelo espanto da imponência de tamanha obra. Já aos pés da esfinge, pasmo. Pensei; parece que vim provar a sua existência!

As pirâmides erguem-se em grandes blocos de pedra rugosa, têm a mesma cor alucinada dos crepúsculos, batidas pelo vento áspero e pelo duro sol. Do cimo do meu cavalo senti-me tal qual Alexandre “o Grande” ou até mesmo César.

Depressa o dia acabou. Pois na verdade o que não me lembro é das horas que rapidamente passaram pelo Cairo. Fiquei em ânsia para ir para Alexandria, só não sabia que iria de carro e não de avião; sorte a minha porque a maior parte do trajecto foi pelas margens do grande Nilo, o rio que sustentou uma das maiores civilizações do passado. Fazia calor, seco, tão seco como possam imaginar... Ajudaram as Colas e Fantas, únicas bebidas, além do chá; porque álcool só nos hotéis.

Finalmente estava em Alexandria, cidade impressionante, banhada pelo mar Mediterrâneo. Ao passar pela alfândega portuária, um dos policias reparou no meu crucifixo que trazia pendurado no meu fio de ouro ao peito. Qual o meu espanto ao ver aquele homem dobrar a manga da camisa do seu braço esquerdo para, com orgulho, exibir o seu antebraço tatuado uma cruz, dizendo que também ele era cristão. Conclusão: nem as minhas malas abriu! Jamais esquecerei, naquele rosto de olhos reluzentes, o orgulho da sua partilha.

No cais esperava-me um navio com cerca 240 metros e de grande tonelagem, de bandeira Americana, de seu nome Ultramar, que para mim foi um bom presságio.

O meu destino imediato era passar do Mediterrâneo para o oceano Índico, atravessando o canal do Zuêz com cerca de 160 km de extensão até ao Mar Vermelho, num percurso de 12h. Já no Índico, navegámos 22 dias até Bangladesh, na Índia.

Mas aí foi outra história... como em todas as viagens que fiz à volta do mundo."