sexta-feira, maio 18, 2007

Campo de afectos



Uma leitora, visivelmente incomodada com a leitura que fez numa recente visita a um determinado estabelecimento prisional, presumo, escreveu-nos a relatar as suas preocupações. A coisa reporta-se ao facto de ter presenciado que existe pouco afecto durante esse período entre os familiares e o recluso a quem vão ver. No mínimo de 15 em 15 dias, segundo diz. Os sentimentos, ou a falta deles, incomodam-na. É normal, já que estamos a falar de pessoas fora destas lides diárias. Porém, nestes homens que viveram toda uma vida de dureza social, transgredindo as leis e regras que a sociedade impõe, a cena é absolutamente justificada, não o sendo tanto justificável quanto baste, diga-se de passagem.

Em princípio, a diferença dos graus de sensibilidade entre quem leva uma vida certinha e aqueles que vêm cá parar dentro é fácil de adivinhar. Um gajo que opta por desenrascar-se na vida, tentando não fazer nenhum e viver à custa do esforço alheio, está-se a cagar para a música erudita, para a poesia e os ensaios de Jorge Luís Borges.
Do lado contrário, todos quantos se perfilam nos ensinamentos de Buda ou de Jeová, de S. Francisco de Assis ou do padre Borga, é natural que a visão humanitária que têm sobre esta gente sofra algumas transformações que incomodam os mais sensíveis.

Claro que esta alusão não se aplica a todos os encarcerados. Sabemos disso. Eu, por exemplo, emociono-me com algumas cenas do “Titanic” (ainda não percebi bem porquê) enquanto outros deliram com o canibal Hannibal Lecter. É crível dizer-se que vivemos num mundo animalesco, onde a sobrevivência é fundamental e onde testemunhamos todos os dias injustiças e assistimos, pelas leituras que fazemos, a imensas desigualdades. A relação entre familiares e reclusos não foge à regra. A excepção é que poderia talvez ser diferente.
Mas toda e qualquer governação, por mais justa que pretenda ser, não se compadece ou sobrevive a incentivar campos de afectos. É mais fácil jogar com sentimentos e, infelizmente, isso é coisa que não se gasta muito por aqui.

Como já estamos habituados, não nos chocamos com a preocupação da nossa querida leitora e aproveito para plagiar o que diz o outro na tentativa de explicar o inexplicável: “Parecendo que não, facilita!”

6 Comments:

Blogger peciscas said...

A amarga visão das coisas que denotas nos teus escritos, é perfeitamente justificável, dada a situação que vives.
No entanto, a demonstração de afectos depende em grande parte dos contextos, mas também das pessoas, daquilo que elas pensam de si mesmas e daquilo que aprenderam a ser.

5:30 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Essas diferenças existentes entre pais e filhos não são completamente estranhas, Zé.
Mesmo tratando-se de gajos que estão presos o nível de realacionamento familiar cá fora não anda muito distante.

Eu sei porquê mas não digo.
Ainda me levavam dentro.

Fiquem bem.

saddam, o dos fados

7:01 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

epá, quem me dera estar naquela foto lá em cima!

py

11:49 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Zé e pessoal, se quiserem procurar a teoria sobre aquele abraço, chama-se biophilia.

11:51 da manhã  
Blogger gaivina said...

Por vezes acontece com alguns companheiros presos, começarem a analisar, por via da circunstância, a importância da família e o papel do Pai, quando estão entre grades...

6:29 da tarde  
Blogger gaivina said...

Por vezes acontece com alguns companheiros presos, começarem a analisar, por via da circunstância, a importância da família e o papel do Pai, quando estão entre grades...

6:29 da tarde  

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