quarta-feira, maio 23, 2007


Setúbal

Na continuação do projecto “A cor das histórias”, que está a percorrer os estabelecimentos prisionais pela mão do Miguel Horta, em parceria com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, publicamos uma carta curiosa.

Perguntaram-me “como é que as crenças funcionam na prisão?”.
Na minha qualidade de bibliotecário de trazer por cela, respondo que depende. Depende da educação religiosa a que cada um destes manganões foi administrada. Entre outros factores, depende do estado psíquico em que se encontra cada um deles; enquanto existem uns que se revoltam pela sorte madastra que lhes tocou, outros há que se agarram a qualquer bóia que os salve ou lhes alivie a penitência.

A “Missiva a Cristo” do Alex – detido no Estabelecimento Prisional Regional de Setúbal – pode ajudar a desenvolver a opinião que, provavelmente, os que passarem por aqui podem deixar.


"Amado irmão:

Quero antes de mais pedir que me perdoes pelo tardar desta missiva, a primeira que te escrevo. É que tenho andado tão atarefado com a minha vida que dificilmente arranjo tempo para aqueles que mais amo. E depois tenho procurado enganosamente a tua morada, escrita num papelinho algures no fundo de uma gaveta para só agora descobri-la gravada no meu coração, oculta, perdida desde o tempo da minha inocência, tempos antes da minha boca provar o sumo da maçã avermelhada, daquela árvore que nosso Pai nos haveria proibido. Mas tu sempre foste um filho obediente, recto.

Pois é irmão, saudosamente me recordo dos tempos em que o meu coração ainda era daquele barro moldável, livre de impurezas, de vícios, onde nosso Pai tão subtilmente esboçou a sua arte com os seus ensinamentos, onde com todo o seu amor realizou a sua obra, como todas as suas outras. Como fez com todos nós. Foi esse amor que eu perdi, desentendi o verbo! Ou simplesmente soneguei-o do meu peito condenando o meu coração a este turbilhão de emoções que é a nossa existência, que não é mais que o nosso cepticismo, ou medo ao nobre sentimento. Se ao menos o nosso orgulho conseguisse entender que admitir a nossa fraqueza e pequenez é sinal de grande coragem como tudo podia ser diferente... E fui crescendo irmão, erradamente eu vejo, e perdi-me na sabedoria dos Homens, na sua liberdade desmedida, no seu desrespeito. Aquele mesmo desrespeito que tive com as leis de nosso Pai.

E depois amei...antes, apaixonei-me intensamente pela carne, que me distrai, me tenta e seduz, aquela Eva que foi parte de nós, que nos falta e completa, e, é a nossa perdição e a nossa continuação. Essa mesma mulher a que vou chamar de esposa e que me vai fazer Pai, Avô, dar-me outra família.

Como tendemos a infectar, irmão, a parasitar com a nossa falsa omnipotência e uma brutal subjugação a nossa relação com os outros. O que nos trouxe a escolha pela sabedoria, o custo da nossa desobediência, esse doce veneno que nosso pai caprichosamente nos deixou ao alcance de um braço, se continuamos a agir como os restantes animais selvagens desprovidos de racionalidade e misericórdia!?

És tu meu irmão aquele retrato fiel que nosso pai pintou para o homem, um homem sábio, humilde, misericordioso, piedoso e solidário. Tu sabes o quanto te tenho pedido, naqueles monólogos em forma de oração, para me ensinares a compreender melhor os desígnios de nosso Pai. Perdoa-me irmão as vezes que teimosamente não te abri a porta, apesar da tua constante presença, da tua eterna omnipresença. E como um irmão mais velho tens-me guiado e amparado, dado esperança, tens feito de mim um ser melhor apesar de todas as minhas falhas e pecados, sacrificaste-te por nós, por toda esta terrena família. E inundas a nossa alma de intensa luz, de uma serena paz, de uma inabalável Fé. Por isto em nós és Rei coroado, não com ouro, mas com gratidão e amor.

Por hoje me despeço de ti, irmão, confiante que jamais te vou esquecer."

Alex - E.P. Setúbal 8/Março/2007

6 Comments:

Blogger gaivina said...

É muito importante que estes textos sejam publicados e lidos...

12:07 da manhã  
Blogger Pedro said...

humanidade de quem aprende com os livros e com a escrita uma prenda do interior para o exterior. do exterior para interior de cada ser . cacere demasiado pesado para quem é um ser humano.
Parabens! pelo blog! o viver a vida de um modo diferente é um ensinamento que cada ser humano tem pela vida fora!

10:58 da tarde  
Blogger eduardo said...

Já uma vez comentei num dos textos da rapaziada de Setúbal que o indivíduo em si procura o apego, a esperança, e tem fé nas coisas em que crê.

Sabes que nunca me envolvi com figuras bíblicas ou divinas, mas sei que qualquer um pode-se agarrar àquilo em que acredita. É normal e salutar. O Alex, tais como tantos “Alex’s” que eu conheço cá por fora fazem a mesma coisa.

Por isso, é fácil constatar que é possível um retorno. Um voltar a face da moeda. Ter a tranquilidade, a paz de espírito que todos nós, afinal, procuramos.
A prová-lo, está a palavra amiga que os que vão passando por aqui, como tu dizes, podem deixar.

Um abraço a todos.

12:35 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Um gajo "apertado", ainda por cima na flor da idade, é natural que desabafe, se confesse, aos seus santinhos.

A coragem do Alex ao expor os seus sentimentos mais profundos perante toda esta rapaziada que aparece por aqui, dá razão ao Padre Américo: "Não há rapazes maus."

Força, Alex!
A malta torce por fora para que tenham a chance de refazerem a sacana da vida.

saddam, o dos fados

5:45 da tarde  
Blogger peciscas said...

Tens lá no Peciscas um prémio, que até é duplo.
Se o quiseres aceitar, vai lá buscá-lo.

11:03 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Que eu saiba Jesus não regateia amor a nenhum dos seus irmãos, mesmo aqueles como eu que nem baptizado sou. Ele não liga a burocracias. Quanto ao resto o que é de homem não é conservar a inocência, mas reconquistá-la, com cicatrizes e tudo.

Afinal o que há a perder?

py

9:12 da tarde  

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