segunda-feira, agosto 21, 2006

Testemunhos (1)



“O Instituto de Reinserção Social é o órgão auxiliar da administração da Justiça, responsável pelas políticas de prevenção criminal e de reinserção social, nos domínios da prevenção da delinquência juvenil, das medidas tutelares educativas e da promoção das medidas penais alternativas à prisão”, diz o Portal da Justiça.

E a missão do Instituto de Reinserção Social alicerça-se:
* Na promoção dos direitos humanos, pressuposto fundamental da sua intervenção;
* Na crença no valor da reinserção social;
* Na orientação para resultados no domínio da prevenção dos comportamentos delinquentes;
* Na criação de condições para o incremento das medidas e sanções não privativas de liberdade, com salvaguarda dos interesses das vítimas e das comunidades;
* Numa estratégia de intervenção em sistema prisional que visa primacialmente o reforço das condições de reinserção social em liberdade;
* Em matéria tutelar cível, na focalização do interesse do menor.

Tudo isto era muito bonito… se fosse real.
Na verdade, “os putos de agora são diferentes de nós quando éramos da idade deles”, afiança-me o Tó d’Alfama, um tipo agarrado àquilo que faz rir e que foi criado num desses estabelecimentos ali para os lados da Graça, jurando por todos os santinhos da Sé. Acredito.

"Naquele tempo", continuando a testemunhar-nos a sua experiência, diz que o primeiro escaldão que apanhavam à entrada era um corte de cabelo à-escovinha. “Ali começavam logo por nos despir de veleidades, irreverências ou protestos”, diz ele, danado, e que só lhe apetecia matá-los à dentada.
“Ao primeiro sinal de revolta funcionava logo a chibata. As marcas, ainda penso que as tenho nas costas e nas pernas”, garante. O segundo apertão era os dois dias de cela, já vestido de uniforme azul escuro, tipo pano de zuarte rijo que magoava a pele, para ser estudado o seu comportamento.

Quando colocado entre demais miúdos, ordenados em formatura, tinha que se integrar depressa e fazer valer a sua esperteza e destreza, se não estava lixado.
Desde os banhos de água fria às seis da manhã (hora do levantar) tinham que lavar a sua própria roupa interior (apenas as cuecas de pau, porque camisolas interiores de alças é mentira) todas as segundas-feiras, os lençóis da cama feitos em tecido teso e frio, e a própria farda depois de o pequeno-almoço se cingir a uma caneca de café com leite e um quarto de pão-de-dezasseis sem nada dentro.

"Agora andam à civil e à-vontade", desabafa, na promessa que nos relatará mais episódios.

(continua...)

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

http://www.triplov.com/fernando_pessoa/Paulo-Urban/index.htm
abraço
py

9:24 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Não por acaso, sei de gente próxima que passou pelo mesmo.
Esquecer tais experiências é impossível. Compreendo em absoluto o Tó d'Alfama.
Ainda por cima sendo do meu bairro.

saddam, o dos fados

12:01 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

ao menos o abraço da foto é giro! Cá fora andamos todos mais ou menos à porrada, e o pior: traição, aproveitem aí dentro para ver se ficam amigos. Um amigo a sério é coisa de grande valor e só se sabe nas alturas importantes.

Mas eu vinha cá era trazer esta coisa engraçada, este relógio cósmico em que todos navegamos (à bolina?):

http://expresso.clix.pt/Actualidade/Interior.aspx?content_id=367868

boas,

py

11:39 da tarde  
Blogger Zé "Prisas" Amaral said...

É sempre bom saber de coisas interessantes, Py. E os amigos, tem toda a razão, é para preservar. Coisa rara tê-los nos dias de hoje.


Saddam Fadista de Alfama, pelas suas características de estar nos blogues cedo percebemos que nos entende.

9:24 da manhã  

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