sexta-feira, setembro 29, 2006

Saídas precárias


Custóias

Tal como os grandes semanários, os grandes escritórios, as grandes fábricas, também nas prisões a sexta-feira é um dia em que se mistura angústia e ansiedade. Nem sempre, é certo, pelos melhores motivos ou causas, mas é o tempo de ver como estão as coisas, fazer as malas e ultimar preparativos.
No entanto, estas saídas precárias que os menos penalizados e mais bem-comportados são quem mais auferem, existe a diferença de vermos o fim-de-semana com outros olhos.

De modo algum nos arrebata a sensação de que se vai para casa para descanso ou de fazer planos de viagens ou passeios. Como que escondido atrás de um biombo, está uma sensação esquisita de perda, de despedida, daquela vida a que se está habituado. Das amizades que criaram raízes na malfadada sorte que nos calhou e do que já alguns consideram a sua própria casa.

Se num dia acontecem várias coisas, numa semana, que quase nem damos por ela passar, podem acontecer situações imprevisíveis que transtornam qualquer um.
Saber que um gajo nosso amigo levou com um balázio nos cornos numa rixa de bairro, não deixa ninguém indiferente.
Constatar que os pais se zangaram outra vez e ouve móveis partidos, também não me parece que sejam as melhores boas-vindas. Ou que a irmã foi assaltada (veja-se só o paradoxo). Ou a avó não ter dinheiro para os remédios. Ou que os miúdos não foram à escola e andam a iniciar-se naquilo que dá mais dinheiro.

Não sei de muitas soluções para alinhavar o comportamento humano desta gente, mas noto no olhar deles a expressão de que muitos gostariam de ficar. Talvez porque nunca saibam o que vão encontrar lá fora.

O nosso fim-de-semana, por vezes, é uma merda. É que nem o Benfica nos alegra.
Tenham vós, os que por aqui vão passando, melhor sorte. Até segunda.

11 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Zé, não descurando o facto da tua análise ser numa posição que nós não temos, aqui de fora a paisagem não é muito diferente.

Garanto eu,

o saddam dos fados

1:59 da tarde  
Blogger João…zinho!! said...

"Encontrei" este blog apenas hoje. Passarei a ca vir mais vezes...
Um bom fim-de-semana...

7:23 da tarde  
Blogger MCP said...

É bom saber que de dentro do sistema prisional se abrem janelas para o mundo (e vice-versa).
Pessoalmente, nunca consegui perceber que privar alguém do direito à liberdade de movimento tenha que significar privá-lo do contacto com a comunidade de que faz parte.

Já agora, e a propósito das seringas: se a troca for anónima (se...), essa liberdade não irá legitimar a posição de quem não quer partilhar a sua? Isto é, usa-a primeiro - se o outro (ou outros) não quiser trocá-la, corre o risco voluntariamente e o dono original fica sempre com a hipótese de ir à máquina antes do 'caldo' seguinte.

Claro que não vai acabar com a partilha - como não acabou cá fora - mas pode garantir liberdade de escolha, o que também me parece importante.

Bom fim-de-semana!

8:20 da tarde  
Blogger Cruzeiro said...

O que vocês encontram cá fora apenas ao fim de semana, há quem encontre diariamente.
É a realidade de um país onde cada vez mais os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres...

9:33 da tarde  
Anonymous mister p said...

Cheguei hoje a este blog. Claro que fiquei vidrado n'"aquele abraço".
Por isso, lá envio tambem o meu.

9:57 da tarde  
Blogger olharomar said...

Brilhante blog, deveria estar a fazer o almoço, mas fiquei aqui presa....

" O homem que não erra,regra geral,é porque nunca nada faz.

E. Phelps.
voltarei para ler mais..

2:14 da tarde  
Blogger olharomar said...

Brilhante blog, deveria estar a fazer o almoço, mas fiquei aqui presa....

" O homem que não erra,regra geral,é porque nunca nada faz.

E. Phelps.
voltarei para ler mais..

2:14 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Há fins de semana que mais valia nao sair do quarto....

Ainda para mais, começou a chover..
Estranho...

10:34 da manhã  
Blogger Grilinha said...

Zé, faço votos para que este fim de semana tenha sido bem passado.
Faço uma pequena ideia do que falas pois nunca estive detida mas os longos internamentos hospitalares (um deles de 7 meses seguidos) levam-me a perceber algumas das tuas observações.
Quando saí o primeiro fim de semana ao fim de 7 meses (dificeis) tive dificuldade em me integrar no movimento das ruas, as ruas modificadas, a casa parecia diferente mas tb não sei explicar o que estava diferente.
A habituação a alerações do quotidiano é dificil em todos os aspectos.
mais uma semana á porat e apenas te desejo que ela passe o mais depressa possivel.
Virei cá visitar-te todos os dias.
Um abraço Grilinha

12:57 da manhã  
Anonymous Raquel said...

Este post dá que pensar... Por um lado o querer sair... por outro o receio do que se vai encontrar... A verdade que todos nós passamos por isto mas… em escalas diferentes.
Quem está "fora" também passa pela mesma angústia se os pais discutem e partem móveis. Mais: vive e vê isso todos os dias e não só ao fim de semana...
Ensinou-me uma médica psiquiatra que os problemas com que nos deparamos podem ser os mesmos na sua essência: pais que discutem, falta de dinheiro, consumo de drogas e álcool, falta de auto-estima, um pai que não dá carinho, etc. O que os torna os “meus” problemas e os problemas “do outro” e que faz toda a diferença é a vivência (absolutamente única) que cada um tem dessas situações... Quem sai ao fim de semana e vive essas situações que o post descreve, pode sofrer o mesmo, menos ou mais, que quem está cá fora e as vive todos os dias…
Espero que o fim de semana tenha sido bom, para todos… até porque o Benfica ganhou!!!!

2:41 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Faço votos sinceros para que em todas as prisões deste país todos os reclusos possam ter acesso à internet e, também possam ter um blog...Sim porque o sol quando nasce é (ou deveria ser...)para todos!
Força, não desista.Um dia virá...

12:11 da tarde  

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