segunda-feira, outubro 09, 2006

Noites mal dormidas...



são todas aquelas de domingo p’ra segunda.
Primeiro porque não se consegue adormecer devido à azáfama e desgaste psicológico que o próprio domingo abrange por razões já aqui explicadas. Segundo: é a noite onde os que rezam mais sonoramente, e onde o silêncio deste nocturno que confrange, mais sonante permite decifrar todas as preces.

Quase impossível saber ler o que vai nestas mentes acordadas.
Mas pela experiência adquirida, calcula-se que não sejam agradáveis. Estou a falar de putos com vinte, vinte e um anos, que a robustez física não tem nada a ver com a estrutura mental em crescimento. São miúdos feitos homens à pressa. Rapazes que a pobreza, a ignorância, as infra-estruturas sociais (ou a falta delas) os encaminhou para os caminhos do risco mais fácil de correr. E quando escrevo correr, também o faço da forma mais literal que se conhece.

Cada cama de corpo e meio, liberta imagens reais num fazer as contas à questão que se coloca: porque estão todos estes jovens aqui? O que falha no sistema político do país real que permite que toda esta malta se rebele, se perca e se desgrace de forma pouco abonatória para os responsáveis que deviam olhar por estas almas nos caminhos que podem não ter regresso? Onde moram as oportunidades que a Constituição permite a quem falhou a primeira vez?
Os varões da cama onde encostamos as cabeças não nos dão resposta. As respostas de outras cabeças também não chegam cá, e mantêm-nos com as olheiras dilatadas.

Ainda por cima, confrontados com o discurso do novo PGR, ficamos convencidos que a luta desigual que travamos, continua. A crer na notícia de hoje do DN.

9 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Foi a primeira vez que passei por aqui, e gostei...vou voltar.

Abraco

Luis

3:35 da tarde  
Blogger eduardo said...

Não será apenas o Zé que se priva do sono para ouvir os lamentos que aqui descreve.
Outros há, pelas mais variadas razões, que não conseguem resistir às insónias.
Apenas com a diferença de que os nossos dias não estão marcados.

Entendo-o por vezes tão bem, que até parece que sou eu que esteja "dentro".

Quanto "ao" mais importante que relata, muitas vezes digo, em tom de brincadeira mas com timbre que soa a verdadeiro, que os bandidos reais estão sempre mal identificados.

Faço votos para que estas noites sejam melhores.

8:39 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Tenho estado fora e por isso não tenho comentado nada. mas já pus a leitura em dia.. Olhe, as noites mal dormidas não são só aí, mas também por aqui isso acontece...
Quanto ao PGR, sinceramente, já não acredito na justiça neste país. As leis são feitas pelos detentores do poder e acabem por se proteger a si próprios... este é o país que temos... mas não me conformo.. Uma boa semana.
mariama

10:21 da tarde  
Blogger Deva said...

Crimes de colarinho branco? Mas isso é uma falsa questão! Quantos chegam aos tribunais? Tão poucos que, os que chegam, são notícia! Essa alteração legislativa, nesse aspecto, não vai fazer qualquer diferença.
Mas, mudando de assunto, e antes que me estique, felicidades ao Daniel que, certamente não terá estado recluso por ter praticado um dos tais crimes, senão a gente já saberia quem ele era.

10:59 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ó amigo Zé, o que dá voz às palavras dos artistas, que também os tem aí retidos, já sei, as longas noites de insónias fazem parte dos fadistas. De outros boémios a quem a arte sempre encanta e canta, e por aí afora se me alongasse.

Parece paneleirice ilustrativa do novo Bairro Alto, mas não é.
É apenas o constatar duma tradição que já não é e que alterou o espírito à coisa.

Mas as insónias, amigo Zé, ainda cá cantam. Por outras razões, claro, mesmo que entenda as vossas.

saddam, o dos fados

11:02 da tarde  
Anonymous nina sem medo said...

Olá Zé,

Bom dia. Já tive oportunidade de lhe dizer que gosto muito do seu blog. Mas faltou-me dizer-lhe que leio nele o desânimo, aliás natural dadas as circuntâncias, de quem tem um profundo descrédito nos sistemas vs sociedade que o rodeia(perdoe-me se estou a ser redutora na minha interpretação). Mas o meu ponto de vista é o seguinte, da forma como fala, retira de si toda a responsabilidade, como se nada da sociedade também dependensse de si. Ora o que creio é que todos fazemos escolhas. É certo que uns têm a vida mais facilitada que outros nessas escolhas, pois escolher significa sempre abdicar de algo em prol do que se escolhe. É certo que ninguém sabe porque é que uns têm que abdicar de mais que outros, mas, em última análise, a escolha é nossa, a decisão é nossa, logo a responsabilidade é nossa, logo não somos só vitimas. Creio ainda que mesmo nos meios mais hostis, há muito que fica ao nosso critério, à nossa mão para mudar e fazermos a diferença, só precisamos de estar dispostos a isso. Veja que o "Zé" é prova disso mesmo, com o Blog que escreve, o seu blog é uma arma muito poderosa, que faz a diferença. Creio ainda que ficarmos todos aqui a lamentarmo-nos, sem a creditar no mundo, mas essencialmente, no poder que temos para nos mudarmos a nós próprios (e assim começar a mudar o mundo), é alimentar o sistema tal como o vê. Deixar de acreditar é baixar os braços e darmos aos outros a hipótese de decidir por nós. O descurso da vítima é desresponsabilizante, em primeira análise, somos vítimas de nós próprios (acho que estou a repedir-me). Quanto ao que não está nas nossas mãos, mais vale aceitar sem revolta e passar a olhar mais para aquilo que só depende de nós.

Desculpa Zé se lhe pareci demagógica ou falei do lado fácil da vida, mas não creio que fazer coro consigo servisse de alguma coisa.

Um abraço.

11:04 da manhã  
Blogger Zé "Prisas" Amaral said...

Olá,bom dia.
O descrédito de que fala, Nina, está espelhado no texto acima. Mas de uma forma geral, aí por fora ele também existe. E se calhar em maiores proporções.
No que toca ao desânimo e às escolhas e responsabilidades, caríssima, e só para que conste, sou o tipo mais optimista deste Palacete e tenho a meu cargo responsabilidades que não passam pela cabeça da maior parte dos reclusos. Ao dar a sensação que lhe provoquei, apenas estarei a reflectir os retratos que vejo aqui dentro. Porque raramente me lamento. Eu fiz a minha escolha e aprendi a viver com ela.
No entanto, agradeço a sua preocupação. Tal como aos leitores deste blogue que nos vão deixando conselhos e palavras de estímulo.
A todos, o nosso sincero Obrigado.

11:32 da manhã  
Anonymous nina sem medo said...

Fico muito contente por me ter enganado. Perdoe-me a análise redutora.

Um abraço

12:04 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

oi Zé, para ti e para todos, quando é para bater no fundo, ai é, sempre a descer=?, vai bater? então deixa ir, controla a respiração e prepara as pernas, deixa chegar bem ao fundinho, e depois aproveita o chão e dá impulso para cima...

cuidado com a descompressão :))

(mas gosto muito de ler os v. estados de espírito e as questões que vais colocando, grande vai ser o carinho que vai viver contigo)

8:04 da tarde  

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