segunda-feira, março 12, 2007

Como nasce um recluso



Não nasce. Transforma-se em.
As voltas que a vida leva e trás, na formação duma pessoa, pode definir o seu futuro. Os factores de desequilíbrios sociais riscam e rasgam as regras. Ao constatar esse facto não estarei a inventar coisa nenhuma. Está nos books da universidade da Vida, e tanto ricos como pobres podem lixar-se a qualquer altura. Depende sempre de circunstâncias estranhas que acontecem aos melhores. E vários exemplos actuais demonstram que ninguém estará imune que um dia aqui venha parar.

Socialmente falando, a malta com menos recursos de engenharia intelectual está mais fodida. Toda a gente devia conhecer que a pobreza e a ignorância são factores preponderantes no insucesso de qualquer um. Estes tipos que convivem comigo há vários anos sabem disso, e tentamos precaver-nos para que num futuro próximo possamos agarrar qualquer oportunidade que nos leve a mudar de rumo.

Porém, numa população de mais de treze mil residentes nos estabelecimentos prisionais deste país, nem todos conseguem arrepiar caminho. É fácil apontar o dedo às instituições governamentais que nos votam ao ostracismo e a importância que elas deviam ter para a regeneração de muitos condenados. Mais fácil ainda, é descarregarmos os sacanas dos nossos delitos na incompetência do sistema, no azar que um gajo teve e coisas assim. Ou até na forma como nascemos e fomos criados, sem ser num berço d’oiro ou com o cu virado p’ra lua.

Na incapacidade de o próprio ser humano estar limitado por razões que a psiquiatria ainda não explica, sabemos que as coisas aí por fora também não estão melhores. Atingiu-se um ponto tal que, lendo e revendo artigos de gente que trata disso, a violência alastra sem controlo e não se está a formar melhores pessoas. Veja-se o que se passa nas escolas. Nas ruas à noite da minha Lisboa que devia ser de divertimento e de lazer. Nos estádios de futebol. Nos bairros onde se amontoam pessoas que não têm nada para fazer.

O velhinho problema étnico e de culturas, a falta de condições para quem Portugal recebe a troco de nada, piora ainda mais as coisas. E não se diga que somos nós, os filantropos que melhor pensam no horário nobre fechados na cela fria, que dificultam as coisas. Os filhos desta rapaziada que aqui pernoita e vive no tempo que estipularam, não nascem com cadastro. Os de quem nos lê e acompanha, também não.
Mas há sempre um quarto à sua espera que a imagem acima pode demonstrar.

11 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Subscrevo.

8:36 da tarde  
Blogger MCP said...

O que pode levar uma pessoa à prisão? A má sorte, o desespero, a burrice, o excesso de confiança, a traição...

O que pode levar uma pessoa à violência? A dose certa de stress.

Nuns sítios vem mais à tona, mas somos todos da mesma selva, caro Zé (como este blog, de resto, bem demonstra).

8:48 da tarde  
Blogger MCP said...

PS:

O comentário anterior não quer ser depreciativo em relação a este blog. Pelo contrário: aí dentro ou cá fora, no que é bom e no que é mau, somos de facto todos farinha do mesmo saco, produto dos vários lados da mesma sociedade.

9:00 da tarde  
Anonymous Ana M. said...

K ninguém ta livre de ser preso, lá isso é verdade! Nós somos responsáveis por nós mesmos, apesar da educação, da sorte, dos sistemas em k tamos inseridos, das companhias, da loucura, da falta de inteligência. Tudo contribui, mas nd é directamente responsável! Assim como há pessoas k estão presas sem o merecerem, tb ha gente k goza da sua liberdade merecendo-a ainda menos.

11:03 da tarde  
Blogger absorbent said...

é isso mesmo q eu vinha aqui dizer, ana m.
o maior problema nao sao os coitados q foram dentro sem terem feito nada. o maior problema sao os canalhas q ficam ca fora e q continuam a criar nos outros, a ignorancia, raiva, estupidez, stress, etc, que acaba por os levar la dentro.

5:41 da tarde  
Anonymous Ribeiro said...

sei o quanto é difícil ser inocente, mas neste pais, ter dinheiro ajuda muito, pois mesmo k sejamos condenados, ainda levará muitoooooooooooo tempo até ser lida a sentença

8:09 da tarde  
Blogger peciscas said...

Este teu escrito,ZÉ, amargo,traduz, de facto, bastante bem o que se passa.
Nós somos, em grande medida, aquilo que a sociedade quer fazer de nós.
Tocas em vários pontos importantes, dos quais, por dever daquilo que foi atá há bem pouco tempo o meu ofício, destaco um: a violência e a indisciplina nas escolas ou à volta das escolas.
Para dizer que, em grande medida, ela se explica pela desvalorização social que a instituição Escola vai acumulando. Por culpas externas, em grande parte, mas também porque a própria Escola não se soube adaptar à evolução do mundo.
E, depois, as políticas de uma sociedade em que o lucro, o individualismo, o número em vez da pessoa, são os valores essenciais, são a grande mola que impulsiona os chamados "comportamentos desviantes".
E há, claro, algumas explicações que ainda é preciso encontrar, para certo tipo de personalidades que,de tão surpreendentemente aberrantes, até parecem não pertencerem à espécie humana. Mas essas, houve sempre, e são apenas, creio eu, explicáveis em termos de patologia.

6:11 da tarde  
Anonymous Paulo de Tharso said...

Caro, Zé. Cheguei até você atravéz de um amigo, o ator Nelson Pérez.
Aqui no Brasil, as condições dos kárceres são, para dizer o mínimo, desesperadoras.
Espero ler com mais apuro estes escritos para trocarmos idéias. Il faut du courage! Tenez!

3:49 da tarde  
Blogger py said...

Eu só vim cá dar um abraço, pás!

1:33 da manhã  
Blogger Pedro said...

Prisas acrescento mais uma palavra neste texto bem enquadrado nos arredores da Capital e paises e mundos etc. Algo que se chama pobreza de espirito e cegueira menta.
Parabéns por este texto.

1:30 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Tenho sono !!!!!!

3:53 da tarde  

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